Após o último filme lançado de Steven Spielberg, sendo a sua autobiografia intitulada de “Os Fabelmans”, tendo como recorte a infância do diretor ao início da vida adulta – marcada por traumas, fantasia e cinema. “Dia D” é o mais novo retorno do cineasta, não só como uma nova estreia como também na temática de extraterrestres, assunto de grande interesse quando observamos em retrospecto sua filmografia. Contudo, ainda assim, sua biografia/memória ainda permanece neste novo filme, especialmente na atenção nas crianças deslocadas, e é claro, o contato com o universo fantástico de muita referência ao cinema.
Nos filmes de Steven, os extraterrestres já foram retratados como povos amigáveis e até podendo ser o melhor amigo de uma criança. Porém, dado ao trauma americano marcado pelo onze de setembro, Spielberg começou a temer o povo exterior, adaptando assim o clássico livro de H.G. Wells “A Guerra dos Mundos”. O que antes admirava pela curiosidade e fabulação, se tornou o terror da potência americana.
“Dia D” é talvez, uma mistura de tudo que o diretor abordou em toda sua história. Existe o medo, o temor, personificado no personagem de Colin Firth e um pouco na figura de Josh O’Connor. E durante boa parte do longa, esse mistério toma formas sombrias, não por parte do povo desconhecido e sim, para o pior da raça humana. Aí, vem a fantasia do infanto juvenil. E sim, estou falando de uma aventura clássica no maior estilo “Caçadores da Arca Perdida”, com deslocamentos, viagens, objetivos claros e os vilões que acompanham o progresso dos protagonistas para uma resolução cara a cara.
Embora não pareça pelo material promocional, ainda existe muitos elementos de “Os Fabelmans”, dado o foco nas crianças reclusas, ligadas a um sistema familiar falho, sendo uma referência clara a vida do realizador. E mais! O cinema como ferramenta narrativa.
Essa brincadeira com o cinema vem desde “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, quando a ciência, em seu total controle por equipamentos e maquinários, entra em contato com as luzes e os sons musicais produzidos pelos alienígenas. A projeção, a onda sonora e as máquinas tornam-se veículos de tradução da lógica/matemática para comunicação/sentimento.
Os lens flares, uma marca registrada do diretor, retornam como elementos de assombração e mistério, mas acabam se revelando como uma grande tela que se abre para o público. Inclusive, na construção de cenários cinematográficos destinados a induzir a memória como uma grande imersão audiovisual, os protagonistas chegam a se sentar em cadeiras para presenciar o espetáculo. Esse aspecto se destaca especialmente no arco do personagem interpretado por Colman Domingo.
Para além disso, a obra incorpora um forte aspecto de fábula infantil. Os extraterrestres são representados de maneira semelhante aos animais de “Branca de Neve e os Sete Anões”, cercando os personagens com a intenção de ajudá-los, participando da música e do canto em uma fantasia que remete ao imaginário clássico da Disney.
“Dia D” não é um filme que precisava se provar. Afinal, somente nesta década, o diretor já realizou dois grandes filmes: sua autobiografia, citada neste texto, e o excepcional musical “Amor, Sublime Amor”. Assim, ao concluir este texto, resta acrescentar mais este título à bela trajetória contemporânea de Steven Spielberg.
