O filme em que Hitchcock destrói a família americana perfeita

Para além de “Um Corpo que Cai”, “Janela Indiscreta” e “Psicose”, o cineasta Alfred Hitchcock tem mais de cinquenta longas no currículo, que atravessou as eras mais importantes do cinema: o mudo, o falado e o colorido. Em “A Sombra de uma Dúvida”, que se encontra no período do cinema falado e em preto e branco, acompanhamos uma família americana bem tradicional.

Tradicional naquele esquema de pai e mãe distantes, mas que permanecem juntos pelo status social, a família é composta por três filhos: uma menina chamada Charlie e outras duas crianças insuportáveis, mas igualmente geniais. A única que mantém costumes ordinários nessa família é a mãe, uma dona de casa clássica, responsável por manter o lar limpo, ir à igreja todos os domingos e preparar todas as refeições do dia. Enquanto isso, o pai é obcecado por fabular situações criminosas com seu vizinho e, talvez, possível amante. Já os filhos, cada um à sua maneira, detêm uma inteligência acima da média: leem livros, são curiosos, enxeridos e extremamente desconfiados.

Nesse ciclo familiar, quem realmente importa para a trama são os dois Charlies: a filha mais velha e o tio, irmão da mãe, que está vindo visitar seus parentes — Charlie, o tio, e Charlie, a filha/sobrinha.

O barato é que o tio Charlie gera suspeitas por talvez ser o famoso assassino de velhinhas tão comentado nos jornais. Desde o início do filme, Hitchcock, através da mise-en-scène, apresenta o tio de forma bastante suspeita. Sozinho em um quarto que parece ser uma pensão, com dinheiro espalhado pela bancada e até pelo chão — essa apresentação de personagem de forma não verbal seria aperfeiçoada mais tarde em “Janela Indiscreta”. Além disso, pessoas o vigiam pela janela; logo em seguida, ele é seguido pelas ruas e, por fim, envia uma mensagem de desespero para os familiares. Oh, oh… isso não está com um cheiro bom.

A narrativa parte da desconstrução do tio Charlie a partir da desconfiança de sua sobrinha. No início, ela o admira e até fala dele como se tivesse um crush — paralelos incestuosos não faltam nesta obra. Mas, aos poucos, como uma personagem inspirada em Nancy Drew (detetive mirim da literatura que resolve crimes em uma cidade pacata dos Estados Unidos), ela vai amarrando as peças e concluindo que seu tio pode ser alguém perigoso.

O engraçado disso tudo é que o filme tenta explicar de onde vêm tantas suposições dessa jovem menina. De alguma forma, os roteiristas de “A Sombra de uma Dúvida” — Thornton Wilder, Sally Benson e Alma Reville — precisavam expor as características da personagem e evidenciar suas referências na tentativa de dizer: “É daí que ela puxou tal traço…”. Isso inclui sua aptidão para o trabalho de detetive, sem perder seu traço feminino, inocente e encantado com o mundo à sua volta.

Ou seja, foi da mãe que ela tirou seu lado mais frágil, enquanto do pai — viciado em criar situações criminosas, diálogos esses que seriam levados de forma exponencial em “Rope” — veio sua desconfiança.

Claro, isso é uma análise sutil a partir do meu olhar e, se essa for a intenção dos autores em meio às longas exposições curiosas no início do longa, sinceramente, não seria necessário. Contudo, eram outros tempos, e personagens femininas fortes e destemidas precisavam ter suas explicações, mesmo que de maneira discreta.

Conforme a trama avança, os detalhes e gestos curiosos do tio se tornam grandes holofotes para a sobrinha. E a pergunta que fica evidente é: “Será mesmo que conhecemos as pessoas que habitam o nosso redor?”. A cada descoberta que Charlie faz, ela se sente cada vez menor. Quando a verdade é finalmente revelada, Hitchcock nos proporciona um diálogo de confronto, um verdadeiro duelo de mentes, muito antes de Clarice e Hannibal em “O Silêncio dos Inocentes”.

No conflito entre os dois Charlies, o tio se torna verdadeiramente uma ameaça, criando situações em que sua sobrinha pode sair ferida, como ligar o carro, deixar o gás vazar pela garagem e, logo em seguida, trancar a garota no local. Todas essas tentativas de assassinato acontecem de forma natural ao longo da trama, sem longos planejamentos.

Inclusive, é por meio de gestos e palavras que os roteiristas evidenciam o tio como criminoso. “Vou fechar a janela, está vindo um ar frio aqui”, diz ele, enquanto o gás do carro sufoca a jovem Charlie. Porém, é justamente nessa situação que sinto uma mão invisível — ou não tão invisível assim — do roteirista, quando o amigo do pai da família caminha para encontrar seu companheiro e discutir teorias sobre assassinatos.

Tá certo que já era um costume ele aparecer todas as noites para visitar seu amante e, juntos, fabularem sobre assassinatos. Mesmo assim, isso me faz questionar a razão da sua existência, se não para ser o grande salvador da protagonista e, é claro, proporcionar situações peculiares ao longo da trama. Quem nunca chegou a teorizar assassinatos em uma roda de amigos que atire a primeira pedra.

A partir da situação envolvendo o gás, a mãe da família começa a suspeitar do próprio irmão. Porém, sua suspeita é mais melancólica do que acusadora, e é aí que volta o incesto. Ao meu ver, essa família é bem estranha. Aparentemente tradicional, contudo, existe uma paixão e uma devoção à figura do tio, tanto por parte da sobrinha quanto da mãe/irmã. Hitchcock gostava de provocar, mesmo de forma sutil — era obrigado a ser sutil graças ao tão polêmico e odioso Código Hays.

Parando para pensar, “A Sombra de uma Dúvida” é um tanto polêmico ao tentar desmistificar a família tradicional americana branca perfeita, criando um elemento que faz cada cidadão americano se questionar, apontando o dedo para o espectador e perguntando: “Você realmente conhece a pessoa ao seu lado?”.

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