O grande Nolan entra numa disputa de egos com o poeta milenar. Essa é a manchete da notícia, com direito a todos os jornais e revistas científicas atrás de explicações, dadas as incongruências vistas em sua nova obra. Já diziam os antigos: “Em terra de Nolan, não se aceita fabulação.” Mas, ao se deparar com o poema de Homero, “A Odisseia”, isso atiçou seu interesse e o tornou o trabalho mais ambicioso de sua carreira, ao ter que lidar com bagagens que se tornariam uma puta enxaqueca para o realizador.
Como o Poderoso iria conciliar seu realismo com uma história que engloba figuras mitológicas, como deuses e monstros, além do uso da magia, dificultando a possibilidade de recorrer à ciência e à medicina para justificar esses eventos? Um mágico diria para usar espelhos, considerados a maior das soluções na criação de ilusões.
Ao invés dos espelhos, o que temos é uma obra escrita e dirigida por alguém de paladar infantil ou enjoada ao contornar seus obstáculos para servir e trair a própria identidade. No fim, ele não mirou em seu realismo, mas também não se entregou à fantasia.
Ele não quer dar o braço a torcer para colocar Zeus discutindo com Poseidon. Contudo, é um excelente entusiasta quando aborda a figura do ciclope e dos gigantes — criaturas que, muito provavelmente, não existiram. Já com relação ao elefante branco na sala, a deusa Atena, figura bastante presente na obra, ela é, na verdade, a personificação do trauma da guerra, um delírio de Odisseu, e não a deusa mitológica.
Também, muito do que se falou antes do lançamento foi sobre a direção de arte e o figurino, que escolheram roupas, armas, barcos e tecnologias que não condizem com a época em que ocorreu a Guerra de Troia. De novo, batendo em cachorro morto. Não haveria problema na criação de um filme com essas questões, uma vez que nossos olhos e nosso referencial cultural já estão acostumados com visuais inspirados em outras culturas. Quantas adaptações e montagens shakespearianas já vimos e isso passou batido? O problema mesmo é o realismo que o diretor tanto preza, mas só o usa como argumento quando lhe convém.
Pode ser polêmico o que vou dizer aqui, mas adaptar esse épico, não era uma tarefa difícil. Dado que o poema já estabelece uma narrativa extremamente moderna, com direito a saltos de espaço e tempo, uso de flashbacks, uma narrativa não linear em todos os sentidos – mérito esse de Homero e não do diretor britânico.
Dinheiro também não era o problema. Com um orçamento estimado na casa dos duzentos milhões de dólares, contudo, nada do que foi gasto foi impresso na tela. É loucura dizer isso de uma obra com um elenco estreladíssimo e, ainda por cima, um filme de época, mas o que me faz afirmar isso é que suas cenas de ação e de grande escala se resumem a enquadramentos grandes – ou nem tão grandes – fechados e com o fundo desfocado. E, quando buscamos comparações na história do cinema, focando na grandiosidade épica, quase nada este acrescenta aos grandes blockbusters hollywoodianos clássicos. “Lawrence da Arábia” é o exemplo dos exemplos, o maior filme já feito, e sinto lhe dizer que “A Odisseia” não alcança nem um terço do filme de David Lean.
Ao contar essa história, Nolan cria uma decupagem bem preguiçosa: plano e contraplano, câmera na mão em determinadas situações, planos gerais para contextualização e é isso. Aquele diretor de O Cavaleiro das Trevas, que usava o travelling para informar o jogo mental entre Batman e Coringa, ou até girava a câmera para nos colocar na visão de mundo de seu antagonista, não existe mais. Aqui, ele deixou de interpretar suas histórias por meio do enquadramento e passou a se preocupar apenas com a maior qualidade de resolução que seu filme pode alcançar.
Se duzentos milhões de dólares foi o suficiente pra fazer esse longa de quintal, talvez, duzentos bilhões de dólares seria o necessário para expandir a magnitude desse projeto para um terreno baldio.
Parando com as ironias e voltando para a história, que, apesar dos pesares, ainda se mantém fiel a certas questões: como a demora para apresentar Ulisses, estabelecendo-o por meio dos diálogos e das situações para construir sua lenda, e fazendo com que, quando o vemos pela primeira vez, nos decepcionemos com o estado em que se encontra. Há também outros momentos bem pontuais, como o cachorro, o ciclope, os gigantes e Cila. Além disso, existem decisões artísticas interessantes, como o uso do arco do protagonista que, ao ter sua corda tensionada, cria uma reverberação musical — um exemplo de som diegético que se integra à trilha sonora.
Esses momentos chegam até a enganar o espectador desavisado, mas, quando observamos a obra em retrospecto, muitas das intenções que a história queria transmitir não obtêm tanto êxito nesta adaptação. Talvez, numa tentativa ansiosa de resumir grandes momentos, significados e lições importantes, muito disso tenha acabado caindo por terra. Há também diálogos que reduzem o significado de A Odisseia, uma obra que, em sua essência, preza pela inteligência de seus personagens e pela humildade; aqui, porém, nada disso é realmente transmitido. As explicações surgem em excesso e, quando aparece uma pergunta realmente digna, a resposta dos personagens é a mais rasa possível. São pequenas ausências ao longo da projeção que bastam para distanciar o épico milenar desta adaptação audiovisual. O que temos é um material extremamente limitado, cheio de incongruências e, talvez, de uma falta de coragem.
Ao que parece, pelo marketing e pela insistência do filme nessa ideia, desafiar os deuses é a grande lição que ele quer transmitir. Ou melhor: seria essa a batalha eterna de Nolan para se tornar um autor imortal como Homero? Afinal, o que é a imortalidade senão ter o seu nome lembrado nos livros de história, mesmo após a morte? Sua Odisseia, na verdade, é mais interna do que o esperado.
