Não é a primeira vez, nem a última, que irei falar de um filme do Luca Guadagnino, cineasta italiano conhecido por “Me Chame pelo Seu Nome”, “Rivais” e “Queer”. E, apesar de seu estouro como cineasta e de sua popularização ainda serem recentes, é bom lembrar que ele está em atividade desde o início dos anos 2000, o que me deixa curioso para descobrir vários filmes à sombra de seus sucessos. “Um Mergulho no Passado” é um filme que, infelizmente, quando saiu, não teve a atenção que merecia, especialmente pelo seu grande elenco e por uma história curiosa.
Tilda Swinton interpreta uma rockstar no maior dos estereótipos: usa drogas, sai para a night, é grosseira e tem um estilo andrógino que lembra bastante David Bowie. E, é claro, ela se envolve com seu produtor, Harry, que é igualmente problemático e sem escrúpulos, interpretado por Ralph Fiennes.
Nessas vindas e idas desse casal, Marianne, a rockstar, conhece um documentarista chamado Paul e se apaixona perdidamente. Paul, que já conhecia Harry e é seu amigo de longa data, aparentemente não vê conflito nesse envolvimento.
O filme começa com Paul e Marianne na Itália. Eles estão isolados devido à condição da cantora, que busca mais silêncio e menos estresse, recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais e, talvez, tentando se reabilitar do uso de drogas. O mesmo vale para Paul: ele procura ficar longe do estresse e do caos em razão de um acidente citado brevemente na trama. Ou seja, os dois assumem a figura de um casal que cuida um do outro, preservando a harmonia e se afastando de toda turbulência. É um contraste evidente entre o caos de uma estrela do rock e a calmaria da piscina, do sexo e do desejo em equilíbrio, simbolizando duas fases distintas.
Porém, com a chegada inesperada de Harry junto de sua filha de 17 anos, Penelope (Dakota Johnson), cuja existência ele próprio desconhecia até um ano antes, a tranquilidade do casal é interrompida. Como era de se esperar, o conflito se torna evidente pela presença inoportuna de Harry.
E, com o passar das cenas, a trama se desenrola por meio de diversas disputas de ego, tanto coletivas quanto individuais. A princípio, tudo gira em torno de Marianne e de como esses dois homens vivem ao seu redor. O fato de ela ser o centro das atenções gera um incômodo na jovem Penelope. Apesar de, à primeira vista, parecer haver um viés fetichista — duas mulheres em conflito e, talvez, uma disputa por atenção —, a questão é muito mais sobre a infantilidade da jovem, que apresenta um comportamento rebelde, semelhante ao de Marianne em sua fase de rockstar, antes de sua reabilitação e dos cuidados de Paul.
Os homens disputam a atenção e o amor da cantora, mas, a cada cena, fica evidente que o conflito não se trata de Marianne, e sim de uma disputa individual. Harry é o caos: uma pessoa que não tem nada a perder, intensa, leal e desequilibrada. Paul, por outro lado, representa o equilíbrio. No entanto, ao conviver novamente com o amigo, esse equilíbrio é colocado à prova, e sua carapaça acaba se tornando frágil quando ele cede aos próprios desejos e ao medo do que pode perder. É aí que as coisas se revelam: disputa por poder, encurralamento, perversão, exposição e a diferença entre quem tem tudo a perder e quem já não tem mais nada.
Essa trama de conflitos, construída a partir da personalidade dos personagens e da forma como as tensões se intensificam, me remete ao clássico “O Talentoso Mr. Ripley”, de Anthony Minghella. Ao adaptar o romance de Patricia Highsmith, o diretor constrói uma trama que, a princípio, acompanha um grupo de amigos ricos desfrutando da vida na Europa, enquanto disfarça a psicopatia de Ripley até o momento em que ocorre um surto e um assassinato improvável. “Um Mergulho no Passado”, para mim, segue uma lógica semelhante, mas inserida em um contexto completamente diferente.
O que eu não gosto nesse filme são as interrupções da narrativa para contar o passado dos personagens, que, sinceramente, pouco acrescentam quando observamos a história em retrospecto. Apesar desse ponto negativo e da comparação com o clássico romance de Patricia Highsmith, no quesito direção, Guadagnino nos proporciona momentos marcantes, como a atenção aos detalhes e aos gestos durante conversas delicadas, revelando os pensamentos dos personagens sem a necessidade de recorrer à exposição verbal.
Além disso, as cenas de sexo evidenciam o desejo insaciável dos personagens, especialmente aquela com Tilda Swinton, que quase perde o equilíbrio no momento íntimo, apoiando-se nas pontas dos pés. Por fim, algo que eu ainda não havia visto na filmografia do diretor é a brutalidade na forma como ela é filmada. Apesar da coreografia ser extremamente lenta e contida, a transmissão da força e da violência é totalmente eficaz, tanto na cena quanto em seu desfecho.
No fim das contas, “Um Mergulho no Passado” proporciona boas reviravoltas e uma história que intriga, porém desliza em suas pausas. Ainda assim, o que torna esse filme injustiçado com o passar do tempo é a pouca atenção dada ao trabalho de seu elenco, especialmente à atuação de Ralph Fiennes, que entrega um personagem diferente de tudo o que já interpretou ao longo de sua carreira.
