Quatro Noites de um Sonhador: O romance vazio de Robert Bresson

“O cineasta Robert Bresson é o cinema francês, como Fiódor Dostoiévski o romance russo, como Wolfgang Amadeus Mozart a música alemã.” Como disse o crítico e realizador Jean-Luc Godard. Baseado em “Noites Brancas”, de Dostoiévski, “Quatro Noites de um Sonhador” é talvez o filme mais comercial de Robert Bresson, justamente por se tratar de uma história romântica depreciativa.

Na história, é aquela mesma do romance russo: um homem sem propósito encontra uma mulher sofrendo pelo ex e, por conta da sua extrema empatia — ou talvez pela falta do que fazer —, se aproxima da jovem e logo se apaixona por ela. Esse homem fica pensando na moça vinte e quatro horas por dia — e, se você já leu o livro, sabe muito bem o quanto o nome de Nastenka se repete nas páginas por conta da obsessão do protagonista.

Aqui, Nastenka se chama Marthe, e o personagem narrador do livro recebe o nome de Jacques — o nome mais comum para um homem francês dos anos 60 e 70.

O que me chama atenção nesta obra é que a ideia se origina na busca de inspiração. O protagonista anda de um lado para o outro, por campos, por estradas, pela cidade; às vezes, até segue mulheres pelas ruas. Um comportamento estranho, semelhante ao de um assediador; contudo, tem motivo para fazer isso, ligado diretamente ao seu ofício de pintor — o que não justifica o fato de ser estranho.

Sua rotina é completamente entediante; mesmo sempre em movimento, não existe harmonia. Sente-se sozinho ao ponto de levar consigo um gravador e escutar diálogos que gravou anteriormente. Aqui, possivelmente entra o modelo perfeito de Bresson. A criação de um personagem totalmente vazio e, colocado em um mundo, sem ter o que cumprir. É a narrativa do artista em busca de sua inspiração ou é apenas um homem sem vida?

É um corpo perfeito para conseguir criar, através dos gestos e feições neutras, significados que venham de cada repertório individual do espectador.

Você deveria estranhar isso? Com toda certeza. Contudo, é por isso que eu disse no trecho acima que este projeto é o mais comercial de Robert Bresson e, talvez, uma possível porta de entrada na filmografia desse cineasta, dado o gênero do filme escolhido e a presença de música no contexto da cena, estabelecendo uma ferramenta diegética. Algo, inclusive, que o realizador da fita só coloca quando há sentido narrativo, motivado pelo posicionamento ou contexto dos personagens. É um cinema mais puro, com poucos planos, sons naturais, preenchendo esse espaço que, teoricamente, seria de um arranjo musical fora de cena.

Contudo, a presença da música só entra quando a personagem de Marthe assume o protagonismo na narrativa, dando um contraste na perdição de Jacques, assim, colorindo mais o filme, atribuindo mistério, sensualidade e delicadeza. Esse mistério já está no visual: usa roupas pretas, como túnicas religiosas, e acredita-se que esteja de luto, quase uma presença fantasmagórica; porém, não passa despercebida.

Atraindo a atenção de Jacques, não só pela sua vulnerabilidade como também pela conversa que se prolonga durante as quatro noites. Inclusive, em um momento mágico, a música toma a narrativa; os personagens prestam atenção nessa maravilha do acaso, uma bossa nova que acontece em um barco que, acredito, passa no rio Sena.

As questões aqui são as mesmas do livro: será que ele só se apaixonou por ela por ter sido correspondido ou só gosta dela pelo fato de sua melancolia? Não dá pra saber. Apesar de Marthe ser diferente de Jacques e até demonstrar mais espírito na sua narrativa, ainda assim é uma casca que precisa ser preenchida. De novo, o código bressoniano sendo retomado. E, diferente desse seu companheiro de quatro noites, que é interpretado pelo público, ela, na verdade, quer ser preenchida por aquele que a abandonou, possivelmente se apagando em meio àquela figura. Assim como Jacques, no trecho final, o público também se sente traído na decisão final da mulher, por encararmos a difícil ideia de que Marthe nunca nos pertenceu.

Assista o trailer

About The Author

Mais do mesmo autor

Litoral do Paraná recebe oficina gratuita “Do Papel às Telas: Gestão Criativa no Audiovisual” de 27 a 30 de abril

“Margens de Si”: exposição de Gabriela Queiroz retorna a Curitiba e transforma o autorretrato em travessia sensível