“El Sur”: quando a infância encontra o desencanto

El Sur segue a mesma vertente do longa anterior de Víctor Erice – The Spirit of the Beehive (1973) –, a visão do mundo sob a perspectiva de uma criança, com o conflito entre a realidade melancólica e a fantasia solta de suas protagonistas. Em The Spirit of the Beehive, vemos a visão subjetiva de uma criança no contexto da Segunda Guerra Mundial. Já neste filme sobre o qual escrevo hoje, o recorte é ainda mais pessoal, em que o contexto da infância e da melancolia não se encontra no país, mas sim na figura paterna da menina, que carrega muitos mistérios, especialmente aqueles que envolvem suas raízes na região sul da Espanha.

Na história, acompanhamos o relato de Estrella sobre sua infância e juventude. Vivendo no norte da Espanha, ela é obcecada pelos segredos do sul, escondidos nos traços e na personalidade de seu pai, Agustín.

Na medida em que sua curiosidade age, assumindo um papel investigativo na trama, a descoberta de uma antiga paixão de seu pai desperta nela um sentimento de ciúmes. De início, há uma quebra na idealização de uma família tradicional perfeita, mas, aos poucos, nasce a desconfiança em relação àquele que ela mais admirava. Distanciando-se, o que antes havia de companheirismo entre os dois agora dá lugar a uma relação quase de desconhecidos.

Há uma cena muito clara que define bem o relacionamento deles, na qual Estrella se encontra do lado de fora de um restaurante, enquanto seu pai está dentro dele. E o que separa os dois é um vidro. Trata-se de um elemento cênico sutil, ainda mais no contexto em que a menina está espionando Agustín; contudo, é uma barreira quase invisível que separa esses dois mundos, estabelecendo esse mistério discreto e simbólico da figura paterna. Conforme a criança cresce, essa barreira, que antes poderia ser apenas um vidro, transforma-se em um muro de concreto, constantemente tampado e pichado para esconder esses problemas. Os dois já não têm mais as mesmas conversas nem a mesma atenção de antes; quase nem se encontram no mesmo quadro sem que haja o desconforto junto da saudade da infância, marcada pelo fim causado por esses segredos.

Em todos os filmes de Víctor Erice, o cinema surge como um conflito imaginativo; aqui, ele passa a ser também narrativo, a partir da imagem de uma atriz — antiga paixão de Agustín. Para além disso, existe em sua filmografia uma espécie de devoção a essa arte. Não é algo dito explicitamente, nem construído por meio de simbologias à la Cinema Paradiso — como a projeção sobreposta à imagem da Virgem Maria —, mas há essa reverência na criação do cinematográfico, como em O Sol de Marmelo, e nas imagens que despertam a alma dos envolvidos na realização, como vemos em Close Your Eyes.

El Sur é mais uma joia na curta filmografia de Víctor Erice, que, além de se provar um grande devoto da sétima arte, também consegue ser um grande romancista em seus filmes, evidenciando seu repertório cultural tanto na história quanto em outras artes. Esse realizador talvez seja um dos únicos que consiga fazer essa junção sem que uma arte se sobressaia à outra, um dom que poucos conseguem exercer.

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