Espetáculo Deriva une teatro e dança para explorar o espaço urbano no Festival de Curitiba

O espetáculo Deriva, da Súbita Companhia de Teatro, foi apresentado nos dias 06 e 07 de abril no Teatro José Maria Santos, em Curitiba. Com direção de Maíra Lour e dramaturgia assinada em parceria com Pablito Kucarz, a montagem integrou as comemorações de 18 anos de trajetória do grupo, consolidando uma pesquisa continuada no campo da dramaturgia contemporânea centrada no corpo e no movimento.

A obra se organizou a partir da investigação das relações entre corpo, cidade e percepção. Inspirado na provocação do geógrafo Milton Santos, “o centro do mundo está em todo lugar”, o espetáculo articula teatro e dança contemporânea para examinar as dinâmicas do espaço urbano, compreendido como um campo de forças atravessado por disputas simbólicas, fluxos e camadas históricas.

O processo de criação foi desenvolvido a partir de práticas de imersão no ambiente urbano, incluindo caminhadas, observações e experiências diretas na cidade. Essas ações configuram o que a companhia define como uma “cartografia coletiva de afetos”, construída a partir da relação entre os artistas e os territórios percorridos. Residências artísticas com colaboradores externos também integraram o processo, ampliando as abordagens sobre corpo, palavra e tecnologia na cena.

De acordo com Maíra Lour, “É um espetáculo em movimento constante, que se adapta aos territórios onde é apresentado e estabelece conexões diretas com a paisagem, a história local e o público”.

No plano dramatúrgico, Deriva se construiu a partir da articulação entre corpo, palavra e imagem, organizando a cena por meio de tensões relacionadas à experiência urbana. Elementos como velocidade, deslocamento, sobreposição de narrativas e contrastes entre permanência e transformação aparecem como operadores da encenação. A cidade foi apresentada como experiência múltipla, marcada por simultaneidades e contradições, que incidem diretamente sobre os corpos em cena.

A estrutura do espetáculo se aproximou da ideia de percurso. A encenação evocou o deslocamento pelo centro histórico de uma cidade, mobilizando referências ao cotidiano urbano, como arquitetura, circulação de pessoas e camadas invisíveis do espaço, incluindo aquilo que permanece oculto sob a superfície, como rios encobertos e memórias apagadas.

Nesse contexto, o corpo foi tratado como território de inscrição dessas experiências. A pesquisa da Súbita Companhia de Teatro considera o corpo como lugar de atravessamento de dimensões poéticas, políticas e estéticas, funcionando como eixo estruturante da criação cênica. A partir dessa abordagem, a dramaturgia se afasta de modelos narrativos lineares, organizando-se como uma composição de ações e imagens.

Com duração aproximada de 60 minutos e classificação indicativa de 14 anos, o espetáculo reuniu em cena Dafne Viola, Flávia Imirene, Nathan Gabriel, Pablito Kucarz e Patricia Cipriano. A montagem foi viabilizada por meio de programas públicos de fomento, como o Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas e o edital PNAB (Aldir Blanc II), evidenciando sua inserção em políticas de incentivo à produção cultural.

Fundada em 2007, a companhia acumulou uma trajetória com mais de uma dezena de espetáculos, produções audiovisuais e publicações, além de ações formativas e residências artísticas. Nesse contexto, Deriva se insere como desdobramento de uma linha de pesquisa consolidada, reafirmando o interesse do grupo em investigar o corpo como mediador das relações entre sujeito e cidade.

Foto de capa Humberto Araújo

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