O The Lumineers provou, na noite do dia 24 de abril, por que é considerado uma das experiências ao vivo mais poderosas do folk rock contemporâneo. Na Live Curitiba, a banda americana entregou duas horas de show que fizeram a plateia cantar do início ao fim, e sair sem conseguir explicar direito o que sentiu, só com arrepio.
O setlist percorreu os principais hits da carreira, com destaque para “Ophelia” e “Ho Hey”, que transformaram a casa em um grande coro coletivo. O momento que parou o show foi quando Wesley Schultz, vocalista e guitarrista da banda, desceu do palco por mais de uma vez para cantar bem pertinho do público, quebrando qualquer distância entre artista e fã. Em determinado momento, segurou a bandeira do Brasil no meio de “Ophelia”. A plateia curitibana respondeu com a mesma intensidade do início ao fim, cantando junto cada música durante as duas horas de apresentação.
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No palco, o The Lumineers se apresentou com uma banda completa, afinadíssima e cheia de instrumentos, entre eles acordeom, violoncelo, percussão e contrabaixo. O entrosamento entre os músicos é visível e genuíno: dá para ver que eles estão se divertindo tanto quanto o público. É o tipo de show que lembra por que a música ao vivo existe, e por que nenhuma playlist substitui estar lá.
Automatic World Tour: uma volta ao mundo celebrando 20 anos de parceria
O show em Curitiba faz parte da Automatic World Tour, turnê mundial que celebra o lançamento do quinto álbum de estúdio da banda, “Automatic”, lançado em 14 de fevereiro de 2025, Dia dos Namorados, pela gravadora independente Dualtone Records. O disco tem 11 faixas e foi gravado em menos de um mês, com uma proposta crua e ao vivo. Segundo Wesley Schultz, em entrevista ao The Colorado Sound, a ideia foi exatamente essa: “Fizemos esse álbum sem muito edição ou ensaio das músicas.”
A inspiração veio do documentário “Get Back”, dos Beatles, dirigido por Peter Jackson, que mostrou o processo criativo da banda inglesa de forma bruta e não filtrada. O resultado é um disco que, nas palavras de Jeremiah Fraites, é “o favorito que já fizemos”. Em entrevista à People, Fraites explicou: “Nos sentimos como crianças no estúdio. Conseguimos preservar o motivo pelo qual ainda entramos no estúdio juntos, porque é muito divertido e porque daríamos a vida por essa música.”
A passagem pelo Brasil incluiu três cidades: Rio de Janeiro (22/04, no Vivo Rio), Curitiba (24/04, na Live Curitiba) e São Paulo (25/04, no Suhai Music Hall). Após encerrar a etapa brasileira, a banda segue para Buenos Aires, Santiago, Bogotá e Lima, antes de finalizar a turnê sul-americana em Quito, no Equador, no dia 9 de maio. Uma rota que atravessa o continente inteiro, com shows que chegaram ao Brasil com ingressos esgotados. Durante a etapa brasileira, a banda contou com o brasileiro Rafael Witt na abertura, que foi convidado pela Live Nation após gravar um vídeo pedindo pela oportunidade e viralizar nas redes sociais.
Em entrevista ao portal TMDQA!, Fraites foi perguntado o que diria ao Jeremiah e ao Wesley de 20 anos atrás, que trabalhavam em um restaurante japonês em Ramsey. A resposta resume bem a trajetória da banda: “Eu diria que todos os sonhos deles vão se realizar e muito mais. Eu nunca esperei que nossa banda pudesse excursionar por seis continentes. Eu ficaria em choque se alguém me dissesse, 20 anos atrás: ‘Ei, você vai tocar no Brasil um dia’. Eu simplesmente não acreditaria.”

De Nova Jersey para o mundo: a história do The Lumineers
O The Lumineers nasceu da amizade e, de certa forma, do luto. Wesley Schultz e Jeremiah Fraites se conheceram na infância em Ramsey, Nova Jersey, cresceram juntos, e foi depois que Jeremiah perdeu o irmão, em 2002, que os dois se uniram de vez pela música. Como Schultz contou à NPR: “São 20 anos, e nós também crescemos na mesma cidade natal. Ele era amigo do meu irmão mais novo, eu era amigo do irmão mais velho dele.”
Eles começaram a tocar juntos em Nova York, mas a cidade grande mostrou ser mais dura do que imaginavam. Em 2009, tomaram uma decisão que mudaria tudo: se mudaram para Denver, Colorado, entraram na cena de open mic da cidade e começaram a chamar atenção com um som folk rock acústico, intimista e cheio de emoção. Foi lá também que adotaram o nome The Lumineers, uma descoberta quase acidental. Schultz contou ao podcast de Bob Lefsetz que o nome surgiu quando um apresentador de open mic os anunciou erroneamente como “The Lumineers”, e o nome acabou ficando.
Em 2012, assinaram contrato com a Dualtone Records e lançaram o álbum de estreia homônimo. O disco chegou ao número 2 na Billboard 200 dos Estados Unidos, entrou no top 10 do Reino Unido e do Canadá, e foi certificado platina triplo no mercado americano. O single “Ho Hey” foi o grande responsável pelo estouro e hoje acumula mais de 1,4 bilhão de streams no Spotify. Em 2013, a banda recebeu duas indicações ao Grammy: melhor artista revelação e melhor álbum americana.
A trajetória seguiu em ascensão. O segundo álbum, “Cleopatra” (2016), estreou diretamente no número 1 da Billboard 200. “Ophelia”, o grande single do disco, se tornou um dos hinos da banda. O terceiro álbum, “III” (2019), trouxe uma proposta cinematográfica e chegou ao número 2 nas paradas. “Brightside” (2022) surpreendeu com uma face mais roqueira. E “Automatic” (2025) fecha um ciclo de duas décadas com o trabalho mais honesto e pessoal que já fizeram.
Sobre o que sustenta essa parceria depois de tanto tempo, Schultz foi preciso em entrevista à People: “É um casamento musical onde você pode sentir que o fogo ainda está entre nós para fazer música. Meu sonho é continuar me sentindo assim quando estiver gravando discos.” Fraites completou: “Passamos por tanto. A relação nunca foi mais especial para mim do que é hoje. O fato de podermos dizer que fazemos isso há 20 anos e que ainda há amor.”
A primeira vez que o The Lumineers pisou no Brasil foi em 2014, no Popload Festival, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mais de dez anos depois, a banda retornou ao país com uma turnê mundial, um álbum maduro e um show que, como ficou evidente em Curitiba, vai muito além do que qualquer gravação consegue capturar. Eles vieram de um open mic em Nova Jersey sem nome. Chegaram a Curitiba com a bandeira do Brasil nas mãos e uma casa inteira cantando junto.
Escute The Lumineers agora:
Foto de capa O Folhetim Cultural/Mavi Alves
