Com uma carreira curta, o cineasta Erico Rassi já se prova como um dos maiores diretores de cinema da atualidade. Conhecido pelo seu último filme “Oeste Outra Vez”, este estreado em Gramado no ano de 2024 e lançado nos cinemas no ano de 2025, atraiu muitos olhares positivos na maneira como a masculinidade é abordada, principalmente em um gênero tão popular por conta da figura do homem viril.
Curiosamente, os seus dois longas são uma grande homenagem ao gênero western, mesmo com as referências não evidentes – inclusive, Rassi admite de ter descoberto pela crítica que seu primeiro longa era um western. Contudo, “Oeste Outra Vez” tem como ponto de ignição a rejeição das mulheres com os homens e como isso os torna violentos, com elas e com eles mesmos. Em “Comeback”, seu primeiro longa, mostra como em tempos de velhice, a violência ainda continua sendo uma questão de provação, agora voltado ao rejuvenescimento.
Ambientado numa cidade de Goiás na região periférica que apesar de modernidade, ainda se assemelha a um western. Um ex-assassino de aluguel chamado Amador está tendo que fazer bicos. Ele é um homem de idade avançada que sempre recorre ao seu passado por meio de um álbum de fotos nada tradicional – ao invés de fotos, tem notícias e matérias de seus crimes. É o que chamamos de um portfólio comprovatório de respeito. Neto, a figura de um jovem aparece e o admira, segue seus passos no maior estilo Robin e Batman, ou até mesmo, Pança e Quixote.
Como Amador é velho, por vezes recorre ao seu passado, o álbum, suas falas e em diálogos de entrevista de pessoas que buscam tirar algo a mais da crueldade de Amador referente aos assassinatos. Seria isso a romantização da violência por meio do desses pesquisadores?
Contudo, o ex-assassino fala brevemente de seus crimes, os tratando como qualquer outro ofício, sem métodos elaborados. Rápido e breve, porque é assim que a vida é.
Assim, o diretor do filme propõe a desconstrução do mesmo, fazendo até nos questionar se ser assassino não foi uma necessidade da vida e como homem bruto, era o ofício mais óbvio de se exercer.
O que eu gosto nesse filme, são os vários símbolos que ele atribui dizendo que o período de gloria do protagonista se encontram no passado. Num determinado segmento, onde Amador precisa pegar uma metralhadora, ele passa imensa dificuldade atrás do objeto. Sendo um indício de que os tempos de violência hoje em dia, já não usam os mesmos artifícios no tempo de Amador.
Seu comeback (retorno) é algo teorizado e ironizado várias vezes, diante da sequência de eventos que desagrada Amador. E o que o faz tomar essa decisão é a própria vaidade. Quando decepciona seu fiel escudeiro ao surgir a notícia de que seus atos violentos — em sua maioria — eram apenas recortes de crimes que sequer eram de sua autoria, o jovem se frustra.
O velho, então, busca esse retorno para consolidar sua imagem; uma tentativa de rejuvenescimento dentro desse contexto, já que essa foi a única coisa que aprendeu a fazer: sustentar a própria imagem. Estamos falando de um homem vaidoso que, apesar de todos os seus conflitos, ainda se preocupa profundamente com a forma como é visto.
Amador, então, retorna para enfrentar todos os confrontos que evitou, decidido a colocar um ponto final em tudo.
“Comeback” é um excelente primeiro filme, contudo, ainda assim, falta mais filme para naturalizar as decisões do protagonista. Um erro que ao meu ver, não se repete em “Oeste Outra Vez”, mostrando um amadurecimento na narrativa de Erico Rassi.
