A comédia dramática A Sabedoria dos Pais, com texto e direção de Miguel Falabella, integrou a programação da Mostra Lúcia Camargo no Festival de Curitiba de 2026, com apresentações nos dias 08 e 09 de abril, no Teatro Guaíra. Em cena, Natália do Vale e Herson Capri dão vida a um casal que, após 35 anos de casamento, decide se separar. Esse é o ponto de partida de uma narrativa que olha menos para o fim e mais para tudo o que vem depois dele.
Ao longo da peça, acompanhamos os desdobramentos dessa decisão ao longo de uma década. Cada personagem tenta, à sua maneira, reorganizar a própria vida, lidar com a solidão e se abrir para novas possibilidades afetivas. Nesse percurso, a dramaturgia costura temas como amadurecimento, reinvenção e memória, sempre atravessados pelas referências dos pais, representantes de uma geração marcada por relações mais longas e estáveis.
Esse contraste entre gerações é um dos pontos mais interessantes do texto. Sem cair em nostalgia ou julgamento, a peça constrói um olhar sensível sobre as transformações nas formas de amar, colocando lado a lado o ideal de estabilidade do passado e a fluidez das relações contemporâneas.
A encenação aposta em uma estrutura mais tradicional, centrada no texto e na atuação, mas encontra bons recursos visuais para sustentar a narrativa. O cenário, assinado por Turíbio e Zezinho Santos, se destaca pela maneira inteligente como se transforma em cena. Elementos móveis e painéis acompanham a passagem do tempo e ajudam a marcar as mudanças emocionais dos personagens, criando uma dinâmica fluida e funcional.
A iluminação de Paulo César Medeiros e a trilha sonora de Leandro Lapagesse reforçam essa atmosfera mais íntima, enquanto o figurino, de Marco Pacheco e Jemima Tuany, aposta na sobriedade e dialoga com a maturidade dos personagens sem chamar atenção excessiva.
Em cena, o destaque evidente é Natália do Vale, que retorna ao teatro após mais de duas décadas afastada. Sua presença é segura, carismática e muito conectada com o público. Com domínio do tempo cômico, ela conduz boa parte dos momentos de leveza da peça, arrancando risadas espontâneas, mas também entrega nuances mais delicadas quando a narrativa pede.
Herson Capri constrói um contraponto mais contido, trabalhando vulnerabilidade e introspecção. A química entre os dois, construída ao longo de anos de parceria, aparece de forma natural e contribui diretamente para a credibilidade da história.
Apesar da solidez técnica e do bom desempenho do elenco, A Sabedoria dos Pais permanece dentro de uma zona de conforto estética e dramatúrgica. É uma peça bem construída, envolvente e agradável, mas que não se arrisca a ir muito além do que propõe. Sua força está mais na identificação do público e nas atuações do que em qualquer tentativa de inovação.
Nesse sentido, a assinatura de Miguel Falabella pode elevar as expectativas. Talvez se espere um impacto maior ou uma camada extra de complexidade que não chega a se concretizar plenamente. Ainda assim, isso não compromete a experiência. O espetáculo cumpre com eficiência aquilo a que se propõe.
O resultado é uma montagem leve, sensível e acessível. Tem humor, emoção e reconhecimento, elementos suficientes para envolver o público. Não é uma obra extraordinária, mas também está longe de ser esquecível.
Foto de capa Annelize Tozetto
