A montagem Édipo Rec, do Grupo Magiluth, integrou a programação da Mostra Lúcia Camargo no Festival de Curitiba, com apresentações nos dias 08 e 09 de abril, na Ópera de Arame. Com direção de Luiz Fernando Marques e dramaturgia de Giordano Castro, o espetáculo propõe uma releitura contemporânea de Édipo Rei, aproximando o clássico de uma linguagem híbrida que mistura teatro e audiovisual.
Essa interseção entre linguagens é um dos eixos centrais da montagem. O espetáculo incorpora captação de imagem, projeções e recursos visuais que dialogam com o cinema e com a forma como hoje construímos narrativas mediadas por telas. Ao mesmo tempo, a escolha da Ópera de Arame amplia essa proposta, exigindo soluções que deem conta de sua escala. Como destaca Giordano Castro, “Quando chegou a proposta da Ópera pra gente, foi um pouco assustador. É um lugar lindo, mas é gigantesco”.
Dividido em duas partes bastante distintas, Édipo Rec começa com uma proposta imersiva. A primeira metade se estrutura como uma grande festa, com música e interação direta com o público, que é convidado a subir ao palco e participar da cena. Segundo o diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi, “Essa festa é uma maneira de colocar a plateia dentro da tragédia. As pessoas precisam saber como as coisas estavam antes pra entender a dimensão do que vai acontecer”.
Na prática, porém, esse início se estende além do necessário e acaba produzindo um efeito contrário. Para quem participa ativamente, o momento pode ser envolvente e até divertido. Já para quem permanece na plateia, a sensação é de afastamento. A duração prolongada da interação gera uma desconexão evidente, a ponto de parte do público perder o interesse e, em alguns casos, deixar o espetáculo ainda nesse momento.
Trata-se de um risco recorrente em propostas imersivas. Quando a participação não alcança todos de forma equilibrada, ela pode excluir em vez de integrar. Aqui, essa escolha impacta diretamente o ritmo da peça e a relação com o público, criando um descompasso entre intenção e recepção.
Esse início irregular torna ainda mais evidente o contraste com a segunda metade. A partir daí, a montagem ganha força e encontra um caminho mais consistente.
A releitura de Édipo Rei se revela com mais clareza, e a integração entre teatro e audiovisual passa a ser utilizada com maior precisão. As imagens ganham potência, a encenação se organiza e a narrativa se torna mais envolvente.
É nesse momento que o trabalho do Grupo Magiluth se evidencia. Há uma construção cênica mais coesa, em que os recursos tecnológicos não competem com a atuação, mas ampliam as possibilidades da cena. A linguagem encontra equilíbrio, e o espetáculo finalmente entrega a força sugerida desde o início.
No conjunto, Édipo Rec é um espetáculo de contrastes. Se por um lado apresenta uma proposta estética instigante e momentos de grande potência, por outro se perde em escolhas que fragilizam sua relação com o público, especialmente em sua primeira metade.
Ainda assim, quando encontra seu eixo, revela um trabalho potente e atual. A irregularidade da experiência não apaga a força da segunda parte, que evidencia uma encenação inteligente e bem resolvida. No fim, é uma peça que divide, mas que também mostra, com clareza, o potencial de sua própria linguagem.]
Foto de capa Annelize Tozetto
