“Surda” transforma a experiência no cinema em necessidade de debate

O filme é silencioso. Por muitos minutos, ao ponto de achar-se que está no mudo ou que se trata de uma falha técnica. Mas é de propósito. É uma tentativa de transformar o cinema em uma experiência coletiva mínima da surdez, dentro da realidade não apenas de Angela – protagonista – mas de milhares de pessoas. Em “Surda”, Angela, uma mãe surda, precisa lidar com a maternidade da filha recém nascida ouvinte. 

Sendo a única surda da casa, Angela começa não apenas a sentir as mudanças que toda maternidade proporcionam na vida e rotina de uma família, mas outro sentimento lhe invade o peito de forma avassaladora. 

A barreira de comunicação entre mãe e filha recém nascida parece uma muralhada e traz para o debate, as diferentes formas de relacionamento. O peso dessa dificuldade em um casamento, por mais harmonioso que seja, a longo tempo e como prevalecer o amor fraternal.

Miriam Garlo, atriz com deficiência auditiva, transforma cada emoção de Angela em um espetáculo de afeto, onde é impossível não se tornar empático. Ao mesmo tempo que Álvaro Cervantes também consegue trazer as dificuldades de viver um universo completamente diferente em prol da sua amada. 

Eva Liberdad condiz a construção das dores, da felicidade e das individualidades de Angela com maestria, se preocupando em mostrar a cultura surda para além do óbvio. Pela primeira vez em meses é possível ver uma história fora do eixo norte-americano, chegando a um nível de qualidade técnica e de sensibilidade. 

O roteiro, também de Liberdad, é sensível, emocionante e reflexivo. Em cada cena é possível visualizar e compreender as milhares de camadas que uma mãe surda é obrigada a enfrentar para ter o mínimo de contato com sua filha e com a sociedade que lhe cerca. 

“Surda” é um filme que precisa existir, precisa estar em todos os cinemas e ganhar repercussão para que a cultura surda e, principalmente, os avanços na equidade e igualdade ocorram em todas as esferas. É quase utopico, é claro, mas é através de uma arte tão bem construída e com igual respeito, que é possível trazer a utopia para perto da realidade. 

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