Já não é de hoje que admito e afirmo minha paixão pelo cinema de John Cassavetes. Para mim, o melhor cineasta que já pisou neste mundo. “Sombras” foi seu início, mas também o início de muitos outros que vieram inspirados pelo legado deste longa, desde Martin Scorsese até Paul Thomas Anderson, entre muitos outros nomes.
Numa época em que o mundo passava por revoluções tecnológicas decorrentes do pós-Segunda Guerra Mundial, os equipamentos de cinema tornaram-se mais acessíveis e leves. É claro que, nesse contexto, surgiram grupos de artistas por todo o globo: na Itália, os neorrealistas; na França, a Nouvelle Vague; no Brasil, os novistas; e, nos Estados Unidos, a Geração Beat e o cinema de vanguarda de Mekas, Deren e Warhol, além do surgimento de Cassavetes. Jovem professor de atuação, frequentador de clubes artísticos e grande admirador do mundo da música, especialmente do jazz e do blues.
“Sombras” é essencialmente um grande experimento, dado que é um filme inteiramente improvisado, ou seja, tudo o que assistimos em tela não tinha uma ideia concisa, nem um começo, nem um meio e nem um fim. Esse improviso é transmitido não só nas falas, que por vezes se atropelam, são repetidas ou até não se concluem, mas também na captura das imagens, que pode parecer um tanto amadora e desastrosa — sem contar os inúmeros erros de continuidade. Parte disso se deve ao interesse do próprio realizador pelos mundos que adora: a música, a farra, a amizade entre homens, os relacionamentos e a juventude pseudo-intelectual.
A história fala sobre o relacionamento de três irmãos afrodescendentes: Lelia, Ben e Hugh. Hugh, o mais velho, é um músico que busca reconhecimento e respeito na área, porém se frustra constantemente com seus bicos em bares e festas. Ben, um negro de pele clara, tem o sonho de ser como seu irmão, contudo, vive na farra. Caminha pelas ruas da cidade sem propósito nenhum… Na verdade, zoar com os amigos e flertar com as meninas é um propósito, mas nada de que se orgulhar — principalmente quando há confusões. Já Lelia é a irmã mais nova, negra de pele clara, jovem e que ainda está tentando descobrir o que fazer. Ama as artes, flerta com a literatura, dança e frequenta museus.
Nessa breve contextualização, é possível identificar temáticas importantes, como a família americana nada tradicional: sem a presença de um pai e de uma mãe, com jovens conduzindo os rumos da trama, uma família negra e também politicamente ativa na revolta sexual. O comentário pode parecer uma espécie de crítica ao sonho americano; contudo, não há nada de negativo nisso, uma vez que eles estão tentando ascender socialmente fazendo o que gostam. A única e principal diferença é que eles não são brancos. O que Cassavetes quer contar nessa história é questionar: como seria o ponto de vista do sonho americano em uma família negra? “Sombras” é esse ponto de vista.
O pensamento deles é extremamente progressista e nada conservador. Claro, o patriarcado ainda existe, mas a postura corajosa de Lelia deixa evidente a guerra dos sexos, a rivalidade entre homens e mulheres e a disputa por espaços. Lelia é vitoriosa e até incentivada pelos irmãos. Porém, são os mesmos que criticam e julgam a presença de artistas mulheres no showbiz.
Em meio ao envolvimento com um homem branco chamado Tony, Lelia perde seu empoderamento e fica refém de um relacionamento nada saudável. De início, ele é encantador e sedutor, mas, ao tentar convencê-la insistentemente a praticar o ato sexual, revela-se apenas um animal. Lelia não gosta da situação e se sente pressionada, ainda mais por ser virgem. E é aí que nasce Cassavetes, por meio da exploração de um universo particular, no qual podemos ter acesso à alma das pessoas: os rostos. O sofrimento da jovem é evidente; sua personalidade desaparece, e ela se torna dependente de Tony.
O homem não demonstra ser abusivo, chantagista ou agressor. Contudo, esconde uma repulsa pelos negros. Esse momento se dá quando Tony conhece Hugh, que, em comparação com seus irmãos, Lelia e Ben, tem a pele mais escura. A ficha cai. E, de novo, os rostos são o grande foco. Em nenhum momento, há xingamentos ou o uso da N-word para expor o racismo. Tudo gira em torno dos olhares desviados e do nojo de Tony. Uma cena que não diz nada por meio das palavras, mas em que está tudo no framing.
Diante dessa situação desconfortável, o drama nos revela a maior das empatias. Apesar da evidente rivalidade entre os sexos, os irmãos ainda assim apoiam a irmã ferida. Cuidam dela e a empoderam. Porque, afinal de contas, estamos falando de uma história que aborda minorias e, no fim, elas precisam se unir para vencer as batalhas do dia a dia.
