Numa Paris do pós-Segunda Guerra Mundial é quando essa história se passa, sob a perspectiva de uma criança chamada Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e os espaços que o fazem ser criança — a escola e a sua casa. Na verdade, esses espaços se tornam ambientes que constantemente o forçam a ser um adulto precoce. Criado em meio aos traumas e às dificuldades da classe social a que pertence, a vida do menino é uma corda bamba: não é permitido errar, mesmo sendo jovem e, provavelmente, tendo seu primeiro contato com o mundo real.
“Com ‘Os Incompreendidos’, François Truffaut adentra tanto o Cinema Moderno quanto as salas de aula de nossa infância”, disse Jean-Luc Godard no início de sua crítica para a Cahiers du Cinéma, em 1959. E, de fato, somos apresentados a um mundo não tão explorado no cinema — talvez, por Ford em “Como Era Verde o Meu Vale” —, onde a fantasia solta da infância duela com o peso da realidade. De tema bastante moderno para a época — e até hoje, quando pensamos no direito da criança.
Um lar que poderia ser aconchego se torna um ambiente claustrofóbico, limitado e, mesmo com a não presença de seus pais, ainda assim, Antoine se porta como adulto. Mexe na lareira, prepara a janta, olha-se no espelho — imitando o traço narcisista da mãe — e, em contraste com todas as tarefas de um homem feito, limpa as mãos na cortina de casa. Quando sozinho, assume o protagonismo responsável e, em companhia dos pais, fica escanteado nos planos.
Texto corrigido Já no ambiente escolar, a obra assume uma perspectiva geral. Nosso protagonista, aos olhos da câmera, torna-se apenas mais um entre tantos, dando-nos a impressão de que essa história poderia ser sobre qualquer um ali, dado o sistema educacional, que mais parece o modelo de uma prisão mirim do que um espaço de aprendizado e acolhimento.
As matérias são ensinadas à força, nunca motivadas pelo interesse dos jovens. Aquilo é lei e deve ser seguido; quem questionar, infelizmente, é punido. Será que muito disso foi mudado? Ou o estatuto do ensino começou a olhar para o interesse do jovem e, nisso, abordar as questões naturais da sociedade — algo que Paulo Freire aborda em seu método de ensino?
O que gosto desse ambiente, além de ser aquele que abre a cena, é que também nos mostra, sutilmente, o protagonista dessa história: várias crianças compartilham a imagem de uma mulher sensual, todas ficam delirando com aquilo, mas, curiosamente, a única que pega o papel e desenha sobre os decotes da moça é Antoine Doinel. Mostrando que ele é alguém mais criativo, talvez, que preserva um traço da infância e que, com o passar da história, vai desaparecendo de tanto apanhar da vida.
Se, nesses dois ambientes (casa e escola), o menino não tem liberdade para ser criança, sempre assombrado pela cobrança e pela opressão, o que lhe sobra, no fim das contas? Onde seria o lugar em que teria o direito de ser criança?
Ironicamente, o lugar onde Antoine pode ter uma certa liberdade são as ruas de Paris. Ele se sente livre, corre de um lado para o outro, está sempre em transição de locais. A câmera, apesar de observar à distância, é bastante livre ao acompanhar as corridas do menino e de seus amigos. Quando ocorrem conflitos em casa, ele logo pensa em ficar nas ruas, de tão liberto que se sente por ali. Porém, é lá que exerce seus primeiros crimes: roubar leite e beber como se fosse um alcoólatra, roubar a máquina de escrever de um escritório, ser quase enganado por um golpista etc.
“Os Incompreendidos” é aquilo que comentaram uma vez em “Onde Está a Casa do Meu Amigo?”, de Abbas Kiarostami: um conto de fadas às avessas. A clássica jornada do herói é constantemente manipulada, principalmente quando observamos as figuras de mentores que, na verdade, acabam soando mais como antagonistas do que como aqueles que deveriam ensinar Antoine Doinel nessa jornada. É tudo muito irônico.
