Nova Iorque, 1988, a polícia inicia uma guerra contra o narcotráfico, grandes operações são feitas e em paralelo a isso, Robert Green (Joaquin Phoenix), gerente da balada mais renomada da cidade, está no seu auge financeiro e popular. Tem boas ideias para expansão dos negócios, ele é respeitado por seus colegas, frequentadores e até pelo seu chefe (Moni Moshonov) que o adora como um filho. E o que não poderia faltar, um amor na sua vida, Amada (Eva Mendes). Ele está no alto, então, o que lhe resta a partir do início desta trama? Somente a queda.
O início dessa queda é pressuposto quando a informação de que Robert vem de uma família de policiais e por coincidência, a balada que ele trabalha é um grande point para o tráfico de drogas. É lógico que ele não é inocente, sabe muito bem quem são os seus clientes, e até chega a experimentar os produtos vendidos no seu trabalho. Porém, é evidente que ele é um homem profissional: “Não é meu problema. Não tenho nada a ver com isso.”, uma fala que o representa muito bem. Contudo, esses mundos se colidem e cabe a ele a tomar um dos lados:
O lado do crime indireto, não colaborar com seu pai (Robert Duvall) e seu irmão (Mark Wahlberg), e continuar nesse auge; Ou, tomar o lado da lei, arriscar perder tudo que construiu afim de garantir segurança pros seus familiares e aliviar seu dilema interno.
E a partir do momento quando a vida começa a encurralar Robert, os espaços que antes se encontrava como rei, se tornam desconfortáveis. A câmera, que antes participava da euforia triunfante do personagem, agora está distante, e ele é apenas um entre milhares. Sem contar as brincadeiras que a fotografia faz quando o protagonista está na prisão — devido às desventuras da trama —, mas quem é filmado com as grades sobre o rosto é seu pai. Nos fazendo questionar, quem no fim é realmente livre?
Acompanhar a filmografia de James Gray tem sido interessante, dado que é evidente suas escolas cinematográficas e como a cada obra, ele tende a um aperfeiçoamento ao transmitir sentimento nas suas narrativas.
Em “Little Odessa”, seu primeiro longa, a violência muitas vezes é oculta, coberta pelos cômodos, tomando um posicionamento frio. Em seu próximo filme, “The Yards”, Gray tende a assumir a perspectiva subjetiva de seus personagens, colocando a câmera em closes extremos dos rostos, sentido a ansiedade e a respiração acelerada. Por fim, neste que abordo hoje, esse trabalho assume a experiência subjetiva. Estamos na pele dos personagens do começo ao fim, não ficando exclusivamente nos momentos de tensão. É um aperfeiçoamento evidente no progresso de cada projeto – tanto que depois de “Os Donos da Noite”, Gray só iria retomar aos filmes de crime em 2026 com “Paper Tiger”, que recentemente estreou em Cannes, ainda sem data de lançamento. Mostrando assim um domínio ao gênero e só retornaria quando soubesse o que deveria aperfeiçoar.
Ainda nessa fita, o que citei anteriormente são as escolas cinematográficas nas quais Gray se apoia: ele é um grande saudosista do cinema clássico americano, junto dos rebeldes da Nova Hollywood. Na minha opinião, “Os Donos da Noite” é o que mais se aproxima de um “O Poderoso Chefão” moderno, sem todo o glamour e reconhecimento do título ao qual é comparado, mas com toda a essência de um clássico filme de gangster. O que vejo nesta obra — e talvez o motivo de ela ser tão subestimada e até desconhecida — é uma tentativa de desconstrução dos tropos narrativos clássicos.
O filme de Coppola é o que bebe diretamente das narrativas shakespearianas, sobretudo quando focado nas disputas de poder, nos jogos políticos entre irmãos e na importância da família. Gray, por outro lado, parece muito mais interessado em olhar para os coadjuvantes desses grandes jogos políticos de Shakespeare. Para ele, interessam mais as histórias das bruxas de Macbeth do que a obsessão do rei no pós-guerra. É um olhar voltado aos reclusos, aos personagens secundários. Na narrativa de Coppola, eles seriam os vilões, os traidores, os covardes. Na de Gray, são humanos colocados em situações de desespero.
