Mais de 20 anos de Homem-Aranha nos cinemas: como o personagem acompanhou as mudanças da indústria e do público

Homem-Aranha: Um Novo Dia é o décimo primeiro filme protagonizado pelo personagem clássico da Marvel a chegar nos cinemas. O longa estreou em julho e, como seus antecessores, é um fenômeno de bilheteria, já se colocando como a produção que mais faturou em 2026. 

Peter Parker é novamente vivido por Tom Holland, que se torna o primeiro ator a interpretar o amigão da vizinhança em quatro filmes da “franquia” Homem-Aranha (além disso, com suas participações nos Vingadores, Holland já vestiu o uniforme vermelho sete vezes). Com a estreia de um novo filme, vem também uma constatação: já são mais de 20 anos do Aranha nos cinemas. Como tem sido a trajetória deste ícone dos quadrinhos para continuar encantando novos públicos?

Os primeiros saltos do Aranha no cinema

Tudo começa com o filme de 2002, dirigido por Sam Raimi. De certa forma, é surpreendente que um dos personagens mais célebres da Marvel, criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko, tenha chegado ao cinema apenas nos anos 2000. Para ter uma noção, o primeiro filme sobre o Super-Homem, da editora concorrente DC Comics, protagonizou seu primeiro longa em 1951. 

O filme de Raimi foi apenas o quinto baseado em personagens da Marvel – o primeiro, acreditem ou não, foi a comédia Howard, o Super-Herói, de 1986 – e buscava continuar a sequência de acertos que os estúdios tiveram com Blade e X-Men. A escolha do diretor foi certeira: Raimi era habitual nos gêneros de fantasia e ficção científica, tendo em sua filmografia o filme de super-herói original Darkman – Vingança sem Rosto, de 1990. 

O resultado foi uma produção enraizada em elementos tradicionais dos quadrinhos, abraçando a fantasia daquele universo. As cenas em câmera lenta e as grandes sequências de ação enfatizam o potencial imaginativo daquela história. Além disso, o humor é constante, principalmente à medida que Peter descobre seus poderes. Quem não se lembra, afinal, da cena em que o acompanhamos enquanto busca a técnica perfeita para lançar as teias? 

O sucesso desta primeira aparição do herói nas telas foi notável. Tobey Maguire alcançou o status de estrela do cinema e sua imagem está para sempre ligada a este papel, mesmo que tenha brilhado posteriormente em dramas como em Entre Irmãos (2009) e O Grande Gatsby (2013). Sua atuação trouxe um Peter Parker tímido e deslocado socialmente – talvez foi quem mais evidenciou estas características – em contraste à seu heroísmo nas cenas de ação. 

Uma repaginada, dez anos depois

Talvez a essência do Peter Parker seja o que mais tenha mudado quando o herói ganhou uma nova cara, dez anos depois da estreia do primeiro filme, com O Espetacular Homem-Aranha, em 2012, desta vez interpretado pelo britânico-americano Andrew Garfield. Se Maguire construiu um personagem tímido e deslocado (ainda que brilhante), Garfield o encarna como alguém mais seguro de si, mesmo sendo vítima do bullying dos valentões da escola. Já o brilhantismo do personagem da trilogia original é substituído por uma verdadeira genialidade que se mostra importante para o desenvolvimento da trama.

O Espetacular Homem-Aranha, 2012 | Sony Pictures/Divulgação

Algo que destaca a diferença dos personagens é a forma como utilizam as teias. Se o Parker de Maguire tinha o poder de simplesmente ativá-las diretamente dos pulsos, algo que não era muito explicado, mas que a suspensão de descrença dava conta, este novo Parker constrói um maquinário capaz de produzi-las e lançá-las. Um detalhe interessante, já que estas diferentes maneiras de empregar este poder é algo que também varia nas histórias em quadrinhos.

Dirigido por Marc Webb, O Espetacular Homem-Aranha também se diferencia ao mostrar a relação do protagonista com seus pais, antes dele passar a viver com os tios. O filme também conecta a origem dos poderes de Parker com o vilão da trama, além de apresentar um novo interesse amoroso: Mary Jane, vivida na trilogia original por Kirsten Dunst, dá lugar a Gwen Stacy de Emma Stone, personagem que se assemelha ao nosso protagonista por sua inteligência elevada. 

Lançado em um momento totalmente diferente para os filmes de heróis, o longa ainda se mantém fiel a um tom imaginativo, muito mais leve do que os sucessos que surgiram ao longo dos anos 2000 e moldaram um novo estilo para as adaptações dos quadrinhos: nos estúdios da DC Comics, já tínhamos presenciado os dois primeiros filmes da trilogia do Batman assinada por Christopher Nolan e a versão de Zack Snyder do clássico Watchman. 

Homem-Aranha, o Vingador

A atual versão live action do Homem-Aranha chega em 2017 e, desde então, o britânico Tom Holland vive o amigão da vizinhança das telonas. Desta vez, a missão dos estúdios Marvel e do diretor Jon Watts era dupla, pois o filme foi produzido na lógica do Universo Marvel. Ou seja, não só deveria funcionar como obra por si só, mas precisa ajudar a estabelecer os próximos acontecimentos deste universo, principalmente porque agora o personagem integra oficialmente os Vingadores.

Homem-Aranha: Um Novo Dia | Sony Pictures/Divulgação

De cara, uma diferença no estilo deste novo Peter Parker chama atenção: de todos, é o que mais convence em relação a sua idade. Não só por sua aparência, mas Holland é habilidoso em colocar uma pitada de ingenuidade em sua composição, ajudando muito, também, no humor do filme. E, aqui, já é possível constatar que em toda a franquia vemos pouco do tom realista comum em boa parte dos filmes atuais do gênero.

O sucesso do filme ajudou a fazer de Holland o ator que mais vezes encarnou o personagem. E com o sucesso de Homem-Aranha: Um Novo Dia, é difícil pensar que teremos outra pessoa neste posto num futuro próximo. 

E as animações?

Não podemos nos esquecer de falar do grande sucesso que o personagem encontrou também com a animação Homem-Aranha no Aranhaverso, de 2018. Mesclando técnicas de animação computadorizadas com desenhos feitos à mão, o filme consegue atingir uma linguagem única que ajuda a remeter aos quadrinhos. Aclamado pela crítica e pelo público, venceu o Oscar de Melhor Filme de Animação. 

Homem-Aranha no Aranhaverso, 2018 | Sony Pictures/Divulgação

Desta vez, quem está por baixo do uniforme do Aranha não é Peter Parker, e sim Miles Morales. O personagem teve sua primeira aparição nas revistas da Marvel em 2011, co-criado pelo escritor Brian Michael Bendis e pela desenhista Sara Pichelli. Filho de pai negro e de mão afro-porto-riquenha, Miles foi pensado, também, pela necessidade de uma maior representatividade de personagens negros nos quadrinhos.

Entretanto, mesmo com o sucesso do personagem nas revistas, é possível dizer que sua melhor versão está nos cinemas. Homem-Aranha no Aranhaverso foi dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, e ajudou a firmar Miles Morales como um nome quase tão reconhecível quanto Peter Parker. 

E, se já pudemos ver três versões do Parker nos cinemas, quão legal seria ver um ator viver Miles Morales em um live action? Para descobrir quando isso vai acontecer, só visitando as outras linhas do tempo do Aranhaverso.

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