Antes de caber no bolso, ser compartilhada em segundos ou acumular milhares de registros na memória de um celular, a fotografia nasceu como uma invenção capaz de transformar para sempre a maneira como o mundo era observado e lembrado. Desde o surgimento do daguerreótipo, no século XIX, a imagem passou a ocupar um papel fundamental na preservação de pessoas, lugares, acontecimentos e costumes, tornando-se, ao mesmo tempo, documento histórico e registro afetivo.
No Brasil, essa transformação chegou poucos meses após o anúncio do invento em Paris e encontrou em Dom Pedro II um de seus primeiros entusiastas. Quase dois séculos depois, entre retratos cuidadosamente planejados, registros históricos e a produção incessante de imagens digitais, permanece uma questão: por que algumas fotografias conseguem atravessar gerações e continuar vivas na memória coletiva?
A chegada do daguerreótipo ao Brasil
A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido o tema de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839, para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.
A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando do capitão Augustin Lucas (1804-1854).
Louis Comte apresentou o daguerreótipo para Dom Pedro II. O imperador do Brasil adquiriu um daguerreótipo em março de 1840, apenas três meses após a primeira fotografia tirada no Brasil. Dom Pedro II foi um apaixonado pelas novas tecnologias do período, como o telégrafo, o telefone, a lâmpada e a fotografia.
Durante sua vida, ele tirou centenas de fotos e comprou milhares de outras. Sua coleção de fotografias foi doada em testamento para a Biblioteca Nacional e passou a ser chamada de Coleção Thereza Christina Maria. A coleção possui mais de 20 mil fotografias.
A partir da década de 1850, fotógrafos abriram estúdios nas principais capitais do país, produzindo principalmente retratos. Na década de 1860, alguns fotógrafos passaram a fotografar o cotidiano das ruas brasileiras e a fotografar paisagens urbanas e rurais, e alguns dele foram patrocinados por Dom Pedro II.
Marc Ferrez foi um dos mais populares fotógrafos brasileiros do século XIX. A partir de 1875, ele participou de expedições cientificas pelo interior do Brasil, fotografando estados como Bahia, Mato Grosso e Goiás. Ferrez também fotografou diversas atividades econômicas praticadas no Brasil e diversas obras estatais, como a construção de estradas, ferrovias e portos.
Quase dois séculos depois, em um cenário de produção em massa e imagens descartáveis, o valor da fotografia reside no seu papel de arquivo e gatilho emocional.
A permanência de uma imagem na memória coletiva depende da combinação entre contexto histórico, apelo estético e capacidade de síntese narrativa.
A Ciência do Impacto e da Memória Visual
Fotografias históricas, culturais e familiares operam em diferentes camadas de preservação da memória:
Fotografia Histórica: Funciona como documento e símbolo de uma época. Imagens como a de Phùng Thị Mai (“Napalm Girl”), capturada por Nick Ut em 1972 durante a Guerra do Vietnã, ultrapassam o registro imediato para se tornarem ícones do movimento anti-guerra e moldarem a percepção pública global.
Fotografia Familiar: Atua na preservação da memória afetiva e identidade interpessoal. Segundo o ensaísta Roland Barthes em A Câmara Clara (1980), a fotografia familiar carrega o punctum — o detalhe não planejado que toca o espectador e estabelece conexão direta com o passado.
Fotografia Cultural: Documenta manifestações, estética e costumes, funcionando como registro antropológico. Registros fotográficos de festivais, movimentos artísticos e comportamentos urbanos consolidam a identidade de grupos ao longo das décadas.
A Transição do Analógico ao Digital
A mudança no suporte físico alterou a forma como as sociedades interagem com a memória visual. Enquanto o filme fotográfico impunha um limite físico e financeiro — demandando seleção prévia do clique —, a fotografia digital massificou o registro diário, gerando o fenômeno da hiperamnésia visual: a abundância de dados que dificulta a fixação de memórias específicas.
No início do século XX, surgiram os primeiros fotógrafos ambulantes do Brasil, conhecidos popularmente como fotógrafos “lambe-lambe”. A presença deles com suas grandes câmeras com tripé foi comum nas grandes cidades do Brasil até a década de 1970. Ainda hoje existem alguns lambe-lambe na ativa em nosso país.
Duas teorias tentam explicar a origem do apelido lambe-lambe. Uma delas afirma que os fotógrafos lambiam as placas de vidro para saber qual lado deveria ser utilizado para produzir a fotografia; a outra defende que eles lambiam o envelope no qual a fotografia era entregue para o cliente.
A primeira grande importância da fotografia é a preservação da memória. A fotografia permitiu ao ser humano perpetuar memórias de lugares, pessoas e acontecimentos históricos. Ela nos conecta diretamente a nosso passado, nossos ancestrais, nosso país e nossa humanidade.
