Uma praia escondida na Tailândia, um vilarejo neozelandês, um desfiladeiro nos Estados Unidos e um mosteiro isolado na Irlanda. O que essas paisagens têm em comum? Cada uma delas entrou para o imaginário global não por sua geografia, mas por uma tela de cinema. O chamado turismo induzido por filmes, virou um dos fenômenos mais potentes da indústria do turismo: segundo levantamento oficial da VisitBritain (2024), produções audiovisuais influenciam a escolha de destino.
“A Praia” e o paraíso que quase morreu de sucesso (Maya Bay, Tailândia)

Nenhum caso ilustra melhor o fenômeno — e seus riscos — do que a Maya Bay, na Tailândia. O filme A Praia (2000), de Danny Boyle, com Leonardo DiCaprio, transformou uma baía de areia branca no Parque Nacional de Mu Ko Phi Phi em ícone mundial. O resultado foi avassalador: segundo o The Guardian (2018), a baía chegou a receber até 5.000 visitantes por dia, com números que triplicaram desde 2004 — e, para a The Independent, o local foi fechado à visitação em 2018 por conta de “números excessivos de turistas”. O desfecho virou alerta global: a baía ficou fechada por quase quatro anos para recuperação ambiental, com restrições impostas após a reabertura, como detalha a Borders of Adventure (2026). O paraíso do filme precisou ser salvo do próprio público que ele criou.
“O Senhor dos Anéis” e a Nova Zelândia que virou Terra Média (Hobbiton)

Quando a trilogia O Senhor dos Anéis (2001–2003) estreou, Peter Jackson não apenas adaptou Tolkien — reescreveu o mapa turístico da Nova Zelândia. Após o sucesso da trilogia, movimentando cerca de NZ$ 33 milhões por ano, segundo dados da própria Tourism New Zealand. O epicentro é Hobbiton, em Matamata, o cenário do Condado. Vinte e cinco anos depois, a atração segue forte: a Travel Weekly (janeiro de 2026) destaca que Hobbiton é, hoje, a locação neozelandesa mais reconhecida pelos viajantes americanos. Um vilarejo rural virou parada obrigatória em qualquer roteiro pelo país.
“Indiana Jones” e a cidade que já era milenar, mas virou cenário (Petra, Jordânia)

Petra, na Jordânia, foi construída pelos nabateus há mais de dois mil anos — mas foi Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), com sua sequência final diante do famoso “Tesouro” (Al-Khazneh), que fixou a cidade no imaginário pop. A CNN a descreve como a maior atração turística da Jordânia, e os números oficiais do próprio destino confirmam a força do apelo: segundo o Visit Petra (dados oficiais), o número de visitantes cresceu de forma consistente entre 2010 e 2024, com picos acima de 1,1 milhão de visitantes em alguns anos. A história de Petra também ensina que o cinema cria desejo, mas não protege contra crises: a CNN já reportou quedas bruscas de visitação em períodos de instabilidade regional no Oriente Médio — o apelo cinematográfico convive com a geopolítica.
“Harry Potter” e a magia que lotou a Escócia (Glenfinnan e Alnwick)

O fenômeno Potter é dos mais documentados do turismo induzido por filmes. Dois locais no Reino Unido mostram o impacto em escala:
- Glenfinnan, nas Highlands escocesas: o viaduto por onde passa o “Expresso de Hogwarts” viu as visitas quase decuplicarem em uma década, ultrapassando 000 por ano, segundo o Press and Journal (2018); o Scotsman registrou alta de quase 60% em um único ano (para 251.181 visitantes). Em 2026, o Architects’ Journal noticiou o projeto de um centro de visitantes de 6 milhões de libras para dar conta da demanda.
- Castelo de Alnwick, em Northumberland: cenário de Hogwarts nos dois primeiros filmes, registrou alta de 120% nas visitas e gerou cerca de 9 milhões de libras em turismo para a região, conforme a BBC News (2007).
“A Noviça Rebelde” e a cidade que vive da música (Salzburg, Áustria)

Lançado em 1965, A Noviça Rebelde (The Sound of Music) pode ser o caso mais longevo do fenômeno. Salzburg, onde a família von Trapp viveu e onde o filme foi rodado, recebe cerca de 300.000 visitantes por ano nos locais das gravações — o dobro da população da cidade —, e 70% dos turistas americanos dizem que o filme foi o motivo principal da viagem, segundo o Los Angeles Times (2018). O sucesso, porém, tem cobrado seu preço: em agosto de 2024, a NPR dedicou uma reportagem ao 60º aniversário do filme e ao problema de superlotação em Salzburg, citando a operadora Panorama Tours, que leva cerca de 140.000 pessoas por ano aos cenários. Há até estudo acadêmico dedicado ao caso — o Journal of Travel & Tourism Marketing (2008) analisou o turismo induzido pela obra na cidade.
“Star Wars” e o mosteiro no fim do mundo (Skellig Michael, Irlanda)

A ilha rochosa de Skellig Michael, Patrimônio Mundial da Unesco ao largo da costa irlandesa, tornou-se o lar de Luke Skywalker em Star Wars: O Despertar da Força (2015) e Os Últimos Jedi (2017). O efeito foi imediato: os números de visitantes subiram de cerca de 12.560 para patamares muito superiores, segundo dados do The Irish Times repercutidos pela Matador Network (2019); 2018 foi descrito como o ano mais movimentado para peregrinos jedi no local, segundo o portal especializado Skellig Michael — e a BBC noticiou a preparação do sítio para receber os fãs (2019). A peculiaridade aqui é a gestão: por ser um sítio frágil, com acesso limitado por barco e vagas fixas por dia, Skellig Michael mostra que o turismo de cinema pode ser canalizado — desde que com controle rígido.
Os clássicos que a academia registrou (Devils Tower e Wallace Monument)

O fenômeno é antigo. Uma revisão acadêmica publicada na Academy of Business (2021) compila casos históricos documentados: após Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), a Devils Tower, em Wyoming, registrou aumento de 75% nas visitas; Coração Valente (1995) elevou em 300% o número de visitantes do Monumento Wallace, na Escócia, no ano seguinte ao lançamento; Dança com Lobos (1990) gerou alta de 25% no Fort Hayes, no Kansas — ante 7% nos quatro anos anteriores; e o meu preferido, o Hotel Stanley, no Colorado, do filme O Iluminado (1980), que estava pronto para fechar as portas, quando recebeu a visita da família de Stephen King. Passeando pelos largos e vazios corredores do hotel, king concebeu a história para seu livro que poucos anos depois viraria filme com Stanley Kubrick. Conclusão, o hotel continua aberto e virou ponto turístico para os fãs do filme. Ou seja: muito antes das redes sociais, a tela já criava filas em pontos turísticos.
E você, já visitou algum desses lugares?
