Dekalog 2: Quando um médico é colocado no lugar de Deus

Dekalog é uma série polonesa de dez episódios, cada um deles independentes de si, ou seja, no formato de antologia. A temática que liga cada um dos episódios, além de ter sida realizados por Krzysztof Kieślowski – diretor da trilogia das cores –, a série é inspirada nos dez mandamentos. Não é nada diretamente ligada as histórias da bíblia e sim, cada episódio pega um dos mandamentos e trabalha dilemas morais/filosóficos através dos melodramas criados para a série.

Em “Não invocarás o santo nome de Deus em vão”, o segundo episódio da série polonesa. Dorota, uma mulher que trabalha na orquestra sinfônica está passando por um período difícil, seu marido está doente, internado no hospital e com poucas chances de sobreviver. Desesperada, sempre tenta ter novas informações com seu vizinho que por acaso, é o médico de seu marido. Além dessa tragédia, ela também vive um dilema. Está gravida. Não de seu marido e sim, de um companheiro de trabalho. Pois é, isso que é drama. Como o seu vizinho é a pessoa mais próxima nessa situação e até um possível mediador de conflitos, ela explica a ele que nunca conseguiu engravidar e que entende que sua situação é um milagre. Contudo, não suporta ver seu amor morrendo, assim ela o põe na responsabilidade na figura de Deus:

Ela o enquadra e diz que, com base na opinião dele, se seu marido morrer, ela ficará com a criança. Se ele sobreviver, ela interromperá a gravidez. Em resumo, uma vida por outra.

Nesse grande dramalhão, muitas questões começam a surgir. Afinal, ao emitir sua opinião, o doutor está realmente dando um veredicto ou apenas expressando uma decisão pessoal em relação ao embrião? Mais do que isso: seria possível assumir uma posição quase divina diante de uma questão tão complexa? E sua oposição ao aborto é, de fato, uma convicção ética legítima ou uma interferência indevida em uma decisão que não lhe cabe tomar?

Muitos dilemas surgem ao longo da narrativa. Mas, por incrível que pareça, nenhum deles se apropria de discursos bíblicos ou de argumentos diretamente ligados ao livro sagrado. Esse caminho seria fácil e tornaria tudo mais cafona. “Não Invocarás o Santo Nome de Deus em Vão” não é um episódio de uma série católica ou evangélica; é uma obra sobre a humanidade, suas contradições e complicações cotidianas. A realidade é lançada na tela sem filtros, e é justamente isso que nos prende a essa história, assim como acontece com o conjunto de Dekalog.

Assim, é de se presumir que são obras extremamente melancólicas devido aos assuntos abordados como em “Não invocarás…”. Aqui, a fotografia pega no tom cinza, depressivo, úmido. Para além da coloração fria, Krzysztof Kieślowski estabelece paralelos das imagens com relação ao estado em que os personagens se encontram. Como quando achamos que o personagem do marido está morrendo, mas em um travelling lateral + um close num copo, é possível ver uma mosca se afogando nesse copo cheio de água. Ela está presa ali. Achamos que sua insistência em sobreviver é apenas prolongar o sofrimento. Contudo, ela consegue sair daquela armadilha e voltar a voar.

Isso é poesia visual. Além do paralelo da vida do adoentado, também, é uma questão com a própria fragilidade humana quando comparada aos olhos maiores. E que olhos seriam esses, senão os de Deus?

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