“Cartório das Almas” imerge o público em uma atmosfera nebulosa

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Longa-metragem de Leo Bello traz inquietações sobre vida, morte e algo entre as duas coisas

O céu. Esta é uma das imagens que ficam na memória após assistir “Cartório das Almas”, dirigido por Leo Bello. O principal cenário, um lugar desértico com apenas uma casinha solitária, é filmado com planos abertos, de modo que sempre há destaque para um céu recorrentemente nublado. Até nos momentos em que as nuvens não parecem tão acinzentadas a fotografia de Pedro Maffei traz uma opacidade que joga a audiência em uma atmosfera melancólica e sombria que marca o tom do filme desde seu primeiro minuto.

Acompanhamos a história de Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos que parou de envelhecer aos 26 e está começando um emprego no cartório. Não se trata de um cartório comum: quem chega ao local está decidido a fazer uma transmutação – um processo que transforma a pessoa em um pássaro e, essencialmente,  leva à morte. Os interessados devem preencher uma folha com o motivo do “desligamento”. 

 

O filme se constrói ao redor das várias personagens interessadas na transmutação que aparecem no local. Os diálogos raramente explicitam suas razões ou aprofundam suas histórias. Há mais interesse da obra em mergulhar o público em um mistério, mas sem a intenção de trazer respostas fáceis. A ambientação ajuda a fugir do realismo e traz uma ambiguidade em relação à época, apresentando arquiteturas quase futuristas de alguns cenários junto de tecnologias mais antigas como a máquina de fax e o telefone de disco.

Com apenas 77 minutos de duração, o longa tem um ritmo que parece se arrastar em alguns momentos, mesmo que essa cadência se justifique temática e estéticamente. Mesmo que os pássaros pretos e os céus acinzentados sejam interessantes para a narrativa, a natureza episódica da trama faz com que as exibições dessas imagens percam a força conforme a obra avança. Entretanto, o roteiro é inteligente ao sugerir, nos minutos finais, algumas novas janelas de interpretação. 

No fim, “Cartório das Almas” surge como uma reflexão sobre vida e morte, não para pensar esses temas como grandes questões morais e éticas, mas apenas como grandes processos burocráticos. 

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