Al Pacino e Kitty Winn em cena são um casal daquele tropo narrativo mais básico possível: “garoto conhece garota” (boy meets girl). E estamos falando de “Os Viciados”, filme lançado em 1971, em pleno auge da Nova Hollywood. Tem algo de estranho aí… Se esse movimento consolidou casais um tanto peculiares para a época, como Bonnie e Clyde, de Arthur Penn, ou o maior trisal da história do cinema — Butch Cassidy, Sundance Kid e Etta Place —, este último vindo de um western, gênero caracterizado pela construção do macho e que, ironicamente, permite leituras de relacionamentos bissexuais entre seus protagonistas. Pra mim, é estranho ver um boy meets girl dentro da Nova Hollywood… Ah! Eles são viciados em drogas. Tá, agora sim vejo esse filme encaixado no movimento cinematográfico.
Nessa história, Bobby (Al Pacino) encontra por acaso Helen (Kitty Winn). Ele fica completamente encantado pela garota. Porém, os dois vivem nos Estados Unidos dos anos 1960, em meio ao clima paranoico da Guerra Fria, sem ter um lugar para chamar de lar. Assim, vagam pelas ruas de Nova Iorque tentando garantir a sobrevivência de cada dia — seja conseguindo um pedaço de pão, alguns dólares ou apenas um lugar para passar a noite.
Os dois acabam desenvolvendo uma paixão de extremos e, logo, a influência negativa também chega. Bobby, apesar de ser o cara legal, brincalhão e sorridente, vive vendendo drogas e consumindo-as também. Suas passagens pela polícia já são comuns, e ele até utiliza esse fato como flerte — aparentemente, funcionou com a menina. Helen, por outro lado, nunca havia entrado nesse mundo até conhecer seu par romântico. A princípio, seu problema era apenas com o sistema de saúde dos Estados Unidos, porém, acabou se agravando. Ela se torna viciada em heroína, passa a se prostituir e adota comportamentos explosivos. Pois é, as coisas escalam rápido nesta fita!
E é exatamente isso: não temos indícios de temporalidade, de modo que não sabemos se, de uma cena para outra, se passaram horas, dias ou até mesmo semanas. Os eventos aqui estão sempre se sucedendo de forma acelerada, empurrados e, por vezes, tendo suas sequências comprimidas, com resoluções em off-screen, como quando Bobby desconfia que está sendo seguido; a cena corta e ele já está preso, fazendo uma ligação para Helen.
É um estilo que a história pede para ser contada. Porém, essa experimentação torna os personagens mais distantes. As cenas repetidas — dada a abordagem de uma narrativa em ciclo vicioso — acabam transmitindo a impressão de que a ação já estava acontecendo antes mesmo de a câmera ser ligada. Trata-se de uma proposta interessante; contudo, poucos diretores conseguem dominar esse caos humano da encenação. John Cassavetes é um exemplo de execução precisa. Já Jerry Schatzberg, diretor de “Os Viciados”, não parece compreender exatamente onde começar e terminar cada corte, sintoma de decisões precoces.
Esse estilo foi, inclusive, revitalizado em diversos outros filmes, mas seu exemplo mais semelhante pode ser encontrado em uma obra contemporânea dirigida pelos irmãos Safdie, “Heaven Knows What”. Não se trata da mesma história, contudo, percebo grande familiaridade no estilo de direção, especialmente em alguns planos fechados em meio às ruas.
Amores intensos, amores explosivos, amores destrutivos. No fim, a droga aqui funciona apenas como um pretexto para que esses personagens ajam dessa forma; eles seriam, de qualquer maneira, um casal fadado à separação. Em outras palavras, um casal essencialmente americano.
