Ame ou odeie. É o que está sendo debatido quando as pessoas saem da sessão de “Backrooms”. Contudo, existe uma sensação ainda pior, que até condiz com o tema da história: o vazio. Imagine um filme de uma hora e cinquenta minutos que não desperta nada em você e, ao sair da sessão, você continua o mesmo de quando entrou… Pois é, mas não foi o meu caso, porque eu detestei esse filme.
Foi a partir de uma imagem — de fato, algo que só poderia resultar em um filme — publicada no 4chan que toda essa história surgiu. Os níveis infinitos foram aparecendo, cada um mais único que o outro. Assim nasceu essa lenda da internet, que rapidamente se popularizou. Foi então que o jovem youtuber americano Kane Parsons começou a produzir uma série de curtas baseados nessas peculiaridades. Seus vídeos consistiam em found footage, com foco sutil em uma sociedade secreta e em uma empresa corporativa no estilo da Tyrell, de Blade Runner; da Aperture Science, da série de jogos Portal; ou, mais recentemente, da Lumon, de Ruptura.
A A24 apareceu e ofereceu ao jovem a oportunidade de transformar suas histórias em um longa-metragem, com atores de primeira linha e, é claro, todo esse discurso de autoria para o diretor — um verdadeiro cheque em branco, embora nem se use mais cheque hoje em dia. Que oportunidade! Mas será que ela foi realmente aproveitada? De forma ríspida: não.
Após sair da sessão, fica evidente que essa história foi escrita por um jovem diretor que, ao tentar expandir esse universo e associá-lo diretamente aos personagens da obra, poderia ter transformado esses espaços, antes apenas desconfortáveis, em algo muito mais interessante. Contudo, a construção dos personagens principais, marcada por diálogos e flashbacks, resulta em um roteiro bastante desinteressante. Os diálogos são excessivos e recaem nos clichês do drama psicológico, com a intenção de soar profundos e intelectuais, mas que, no fim, apenas se tornam enfadonhos. Os atores até tentam imprimir alguma emoção a toda essa verborragia cansativa, mas infelizmente não há muito o que salvar ali. É apenas uma das muitas características deste longa que fazem suas quase duas horas parecerem infinitas, assim como seus corredores amarelados. E se as Backrooms são a personificação dos traços desses personagens, meu Deus, você conseguiu tornar esses espaços completamente desinteressantes.
São tropos narrativos que parecem ter sido escritos por um aluno do primeiro período de Cinema: a questão psicológica, a crítica ao sistema capitalista e à necessidade incessante de vender para sobreviver, além da valorização dos imóveis como reflexo da obsessão pelo material. Tudo isso é explicitado nos diálogos, em vez de ser transmitido pela imagem e pelo som. Nada é sugerido ou pincelado; tudo é despejado diante dos nossos olhos e ouvidos. Não há espaço para interpretação, nem para a construção de outras linhas de raciocínio. O filme reduz suas ideias a uma lógica simplista: A + B = C.
É isso. Não tente entender, teorizar ou filosofar; não adianta. Está tudo ali.
Para além disso, essa expansão de universo se mostra bastante limitada diante do que o público mais nichado já havia consumido no YouTube por meio do material de Parsons. Claro, entendo que este filme funciona como uma introdução para quem desconhece esse universo, a fim de atrair novos públicos. Particularmente, eu havia assistido apenas a alguns trechos no YouTube e, ainda assim, saí com uma sensação de insatisfação.
Me pergunto se realmente existe conteúdo suficiente para sustentar um filme e futuras sequências — porque, sim, é óbvio que isso vai se tornar uma franquia. Um universo composto por espaços infinitos, cada um deles diferente e único, acaba se revelando um material surpreendentemente limitado. Talvez seja apenas a minha ansiedade agindo, pressupondo desastres futuros a partir desta introdução. Fico imaginando essa mesma história nas mãos de outro realizador ou roteirista, como, por exemplo, Charlie Kaufman. Ele escreveu “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet, além de dirigir “Sinédoque, Nova York”, que, inclusive, possui algumas cenas que evocam bastante a sensação das Backrooms. Se a ideia de Parsons era associar essas camadas infinitas aos traços psicológicos de seus protagonistas, talvez ele devesse ter aprendido mais com os filmes de Kaufman e menos com o 4chan e os videogames. Ou melhor: ignorar a dimensão emocional e abraçar de vez a ficção científica com elementos de terror; assumir integralmente o tropo das megacorporações e transformar tudo isso em um grande evento épico. Referências para seguir esse caminho certamente não faltam.
Acho que é isso ao que se resume “Backrooms”: uma experiência chata e vazia, na qual ficam evidentes as diversas abordagens e os riscos que poderiam ter sido assumidos. Porém, seu realizador preferiu o conforto para contar uma história nada peculiar. Se o problema foi a falta de referências para o briefing da fita, desculpe, mas isso é justamente o que não falta.
