Recentemente teve o relançamento de “São Paulo Sociedade Anônima” nos cinemas, um grande clássico do cinema novo em sua nova remasterização. Escrito e dirigido por Luiz Sergio Person, este, continua sendo uma grande obra atemporal, assim como várias lançadas no período novista em sua primeira e segunda fase.
O engraçado aqui é que a maioria das fitas lançadas por Rocha, Guerra, entre muitos outros realizadores, estava mais interessada em olhar para a seca do Nordeste, criando seus westerns contextualizados na realidade da região do país, tão mal retratada no audiovisual.
Eram outros tempos e a indústria só queria vender o Brasil com o samba, futebol, Carmen Miranda, Rio de Janeiro e é claro, São Paulo – como essa nova metrópole equiparada com Nova Iorque. Seguindo essa lógica, parece que houve uma traição do movimento quando Luiz Sergio Person escreve um roteiro sobre sua cidade natal. Porém, ao invés de ser um grande cartão postal em forma de filme, este acaba sendo uma grande crítica negativa a cidade, se não, o acumulo da agonia do realizador.
E a comparação com a grande maça americana não é por acaso, dado de que nesta obra, São Paulo é a cidade do futuro. Extremamente industrial, uma metrópole que a cada dia está com algum arranha-céu novo, empresas automobilísticas estrangeiras hospedando suas fábricas, as engrenagens estão sempre rodando, com uma população que acompanha esse ritmo, tornando-os extremamente ambiciosos. Uma transformação aguda.
A imagem que lhes foi vendida é a do “American Way of Life”: as pessoas tendo que aprender inglês, o exibicionismo do carro importado, o casamento e a formação da família perfeita — e o filme nos dá indícios claros, através de fotografias, de que, nesse contexto, não há movimento — evidenciando esse imperialismo americano no pós-guerra. Nas falas de alguns personagens, destaca-se a decepção de um país que esteve ausente dos principais conflitos mundiais e o lema do “made in Brazil”.
Aos desavisados e distraídos, poderia ser um filme de propaganda nacionalista visando uma economia triunfante, usando frases do tipo “O gigante acordou”. Porém, é o testemunho da perda da identidade, da absorção da vida dos cidadãos, a renovação do trabalho escravo evidenciado pelos trabalhadores negros explorados nas fábricas.
Se queremos nos influenciar tanto pelo estrangeiro, por que não importar também o racismo cultural?
O longa é quase um diário pessoal. Um relato desse ciclo industrial, ou melhor, desta engrenagem que aparenta ser milagrosa, mas que aos poucos, é evidente as grandes falhas desse sistema.
São Paulo, ao invés de representar a esperança de um Brasil melhor, torna-se um território sem identidade, sugando a alma de cada cidadão. Além do protagonista, que está preso nesses eventos obscuros, também na personagem Hilda que surge uma esperança de independência de pensamento e propósito para a narrativa. Contudo, seu progresso é interrompido, e o que lhe resta é sucumbir aos próprios vícios e morrer na cidade. A escuridão a cobre dramaticamente, apagando sua identidade.
A perda da identidade é evidenciada a cada plano aberto presente no longa, onde não é possível identificar os personagens em meio a poluição urbana. É como se eles não importassem, como se não fossem os únicos a sofrer nessa prisão kafkiana. O que o filme sugere é que cada cidadão paulista já vendeu se vendeu para pertencer àquele contexto.
