O amor que nasce com prazo: Me Chame Pelo Seu Nome

A história desse aqui é engraçada: Luca Guadagnino não queria dirigir Me Chame Pelo Seu Nome. O convite surgiu diversas vezes, mas, na primeira ocasião, ele estava ocupado com I Am Love, um projeto que tentava financiar há anos. O tempo passou e, novamente, ele estava envolvido em outro trabalho — dessa vez, preparando seu remake de Suspiria — quando o convite para dirigir o filme que abordo hoje reapareceu. Em uma decisão bem workaholic, Luca aceitou dirigir, seguindo os passos de Rainer Werner Fassbinder, que chegava a lançar dois ou até três filmes por ano.

O que, para ele, era apenas um projeto de curto prazo — falando, mais uma vez, sobre pessoas privilegiadas que passam o dia todo à beira da piscina durante o verão, semelhante ao seu anterior The Bigger Splash —, com o então desconhecido Timothée Chalamet, provou ser o filme que catapultou a carreira de ambos. Já me canso de dizer “este é um clássico moderno”, e o uso dessa expressão pode soar um pouco pretensioso e emocionado. Porém, no caso desta obra, é a mais pura verdade.

Poderia mergulhar no romance do filme, em que os dois personagens se estabelecem por meio do tropo narrativo de não se darem bem no início, muito em função da diferença de idade. Contudo, o que se revela ao longo desse verão é que a intriga silenciosa nasce do desejo de estarem juntos — não apenas no sentido sexual ou amoroso, mas também no anseio de conhecer o outro por completo.

Ironicamente, esse casal se aproxima justamente quando o verão está chegando ao fim e, em breve, terão que seguir seus caminhos individuais. Sim, trata-se do dilema clássico do amor limitado pelo tempo — algo que inevitavelmente irá expirar, que já nasce com prazo de validade. A famosa cena do pêssego é um indício de que ambos têm plena consciência da fragilidade que envolve essa relação.

O que eu adoro em Me Chame Pelo Seu Nome são suas referências narrativas. Há um quê de Bernardo Bertolucci presente na provocação do filme, até mesmo em sua sensualidade cômica — como na cena em que Oliver chama Elio e o testa, afim de ver se o rapaz está com os hormônios à flor da pele. Consigo imaginar facilmente uma cena dessas acontecendo em Novecento ou em Os Sonhadores.

Contudo, Bernardo Bertolucci, além de provocador quase canastrão, também é um cineasta profundamente político. Luca Guadagnino não segue exatamente por esse caminho — até porque seu romance não se propõe a isso. Ainda assim, mesmo ambientado em uma época em que ser queer não era bem visto (e, em muitos aspectos, ainda não é), a simples manifestação desse amor já se configura como um ato de rebeldia diante desse pano de fundo. O percurso que Guadagnino escolhe é outro: a manifestação do desejo por meio das grandes paisagens rurais e urbanas, que revelam, por si só, uma tendência ao romantismo de caráter quase filosófico-natural. Há, sem dúvida, uma forte reverência ao cinema de Éric Rohmer, que tantas vezes explorou histórias de jovens, seus afetos e as paisagens que os cercam. Essa naturalidade se manifesta tanto no trabalho do elenco quanto no próprio experimentalismo da mise-en-scène, reforçando a sensação de um cinema que observa, mais do que impõe.

Com relação às atuações, há ali uma relação que ultrapassa a própria performance, e o fato de isso ter sido capturado em cena torna tudo ainda mais especial. Não se trata apenas dos momentos de intimidade, mas também das farras, dos jantares e até de pequenas cenas de silêncio. A energia é tão potente que chega a provocar uma espécie de intervenção do próprio material fílmico em determinado momento: a sombra da película — mais especificamente, os furos da roda dentada — aparece no enquadramento. O mais curioso é que esse “erro” analógico não foi proposital; simplesmente aconteceu. É como se a potência dramática tivesse se manifestado diretamente no suporte do filme. Isso é fruto tanto do grande elenco quanto do trabalho do diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom, que, ao lidar com espiritualidade e energia, demonstra um domínio impressionante na forma de traduzir essas sensações para o 35mm.

No fim, o que resta de Me Chame Pelo Seu Nome é justamente essa potência energética e espiritual — algo que se manifesta por meio da natureza, do organismo, do químico. É quase como magia, como uma espécie de alquimia. E ver tudo isso pulsando na tela, de forma tão orgânica, é algo genuinamente raro no cinema.

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