A Cronologia da Água marca a estreia de Kristen Stewart na direção de longas com uma obra que não pede licença, e talvez nem queira ser plenamente compreendida. Inspirado no livro autobiográfico de Lidia Yuknavitch, o filme se constrói como uma experiência sensorial e fragmentada, recusando qualquer compromisso com linearidade ou conforto narrativo. O que está em jogo aqui não é apenas a adaptação de uma história, mas a tentativa de traduzir em linguagem audiovisual o funcionamento caótico da memória, especialmente quando atravessada por traumas profundos.
Acompanhamos Lidia, vivida por Imogen Poots, em uma trajetória que passa por abuso, vício, perda e reinvenção. No entanto, falar em “trajetória” talvez seja impreciso: o filme desmonta a ideia de progresso contínuo e opta por uma narrativa em estilhaços, onde passado e presente se sobrepõem sem aviso. Essa escolha, longe de ser um mero recurso estilístico, é central para a proposta da diretora. Stewart não quer contar o que aconteceu, ela quer que o espectador sinta como isso reverbera.
Filmado em 16mm, o longa aposta em uma estética crua, granulada e quase tátil. Há uma materialidade na imagem que dialoga diretamente com o corpo da protagonista, um corpo que é, ao mesmo tempo, território de violência e instrumento de expressão. A câmera frequentemente se aproxima demais, invade, sufoca, como se recusasse qualquer distância segura. Em muitos momentos, a sensação é de estar preso dentro de uma mente em colapso, onde lembranças não obedecem a ordem, lógica ou decoro.
Essa abordagem, no entanto, não é isenta de riscos e o filme parece consciente disso. A montagem fragmentada, por vezes, beira o excesso, criando uma experiência que pode afastar parte do público. Há trechos em que a insistência na ruptura narrativa compromete a fluidez e torna difícil estabelecer conexões emocionais mais duradouras. Mas talvez essa seja justamente a intenção: negar a catarse fácil, impedir que o espectador organize o caos em algo confortável.
O roteiro, assinado por Stewart em parceria com Andy Mingo, não suaviza os temas que aborda. Pelo contrário, há uma frontalidade quase desconcertante na forma como o filme trata de abuso sexual, autodestruição e luto. Em vez de enquadrar essas experiências em uma lógica de superação, A Cronologia da Água insiste na permanência das feridas e na complexidade de seguir existindo apesar delas. A escrita surge, então, como um gesto de sobrevivência, não como redenção.
A performance de Imogen Poots sustenta o filme em meio ao seu caos estrutural. Sua Lidia não busca simpatia; ela oscila entre vulnerabilidade e agressividade, muitas vezes no mesmo plano. É uma atuação física, exposta, que acompanha a proposta do filme de colocar o corpo no centro da narrativa. Poots entende que não está ali para “explicar” a personagem, mas para habitá-la mesmo nos momentos mais desconfortáveis.
A recepção no Festival de Cannes 2025, onde o filme estreou na mostra Un Certain Regard, reflete bem essa natureza divisiva. Aplaudido e questionado na mesma medida, o longa se insere em uma tradição de obras que desafiam expectativas e testam os limites do espectador.
