Baseado no livro de mesmo nome, escrito por Daniel Galera, agora, adaptado pelo cineasta Aly Muritiba. “Barba Ensopada de Sangue” é um neo-noir brasileiro ambientado no sul do país, numa cidadezinha onde a principal cultura é da caça as baleias. A história é aquela típica do gênero, um cara de fora adentra essa cultura local para entender os mistérios que de alguma forma, conversam com ele e suas raízes passadas. No fim, acaba descobrindo uma rede de intrigas/corrupção dos moradores dessa cidadezinha.
Uma premissa bastante chamativa, especialmente pelo seu gênero cinematográfico em que há obras excelentíssimas de referência, inclusive, só de ver o filme já me veio à mente “Chinatown” de Polanski e “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” de David Fincher. Contudo, ao ver o filme, o que fica evidente é uma diferença clara em querer falar sobre o mistério do que envolver o espectador nesse mistério, logo, não conseguindo criar o suspense, o temor, o medo, entre outros sentimentos empáticos para trama.
Quem seria o culpado disso? Não existe apenas um. Na verdade, é uma série de fatores que pode causar esse problema: desde o texto, que se eleva na exposição, apesar de querer ser sutil e interpretativo em vários momentos; também na atuação dos atores — que, novamente, pode ser um problema do roteiro ou da direção, não necessariamente deles. Gabriel Leone não consegue sustentar essa trama apática e só cativa em momentos explosivos; já Thainá Duarte fica engessada em suas falas e olhares. Por fim, a direção, que não sabe se quer mergulhar no filme de gênero ou se apela para um lado mais contemplativo e distante, criando cenas de planos únicos, meio arthouse, cinema europeu. Vamos por partes, como diz o Jack.
A começar pela trama investigativa, que de investigação não há muito por aqui. Apesar de o personagem principal não ser um detetive tradicional — aquele que fuma e anda com um bloco de notas para fazer anotações —, ainda assim ele exerce essa função nesta obra, mesmo com as análises mais simplistas possíveis. O que se descobre no caminho vem muito mais da boca do povo, que o olha e literalmente diz: “Eu conheci seu avô!”.
O máximo que veremos o personagem Gabriel — sim, ele tem o mesmo nome do ator Gabriel Leone — fazer na trama é olhar o quarto dos fundos no quintal, pegar uma lança que foi usada na caça às baleias e… não concluir muita coisa. No fim, não há muito o que investigar, já que o mistério não é tão secreto assim.
Os conflitos que acontecem durante a trama se resumem à falta de comunicação entre vários personagens. Um exemplo claro é quando os inimigos do protagonista provocam atentados contra a sua pessoa, seu cachorro e sua amada Jasmine (Thainá Duarte), mas o que me deixa confuso é que uma das pessoas que provocou esse apavoro é irmão de Jasmine.
Na cena seguinte, eles vão tirar satisfação com Gabriel sobre o sumiço da mulher. Instantaneamente, eu me perguntei: “Vocês causaram um atentado contra ela e acham mesmo que essa jovem ficaria de boa com relação a isso? Ou melhor, vocês não se tocaram que esses atentados poderiam resultar no sumiço da personagem sem explicação?”
É um grande risco quando a trama acaba querendo aprofundar muito o universo, mesmo não tendo tempo suficiente para a criação e desenvolvimento dessas relações. E eu entendo que nessa cultura local, existe o fator do medo geracional com relação ao que Gabriel representa, porém, essa falsa profundida acaba emburrecendo a trama.
Se o mistério é frágil e não há personagens inteligentes, o que sustenta a trama? Como eu disse anteriormente, não somos envolvidos pelo suspense investigativo; porém, somos envolvidos pelo interesse em conhecer mais o avô do protagonista.
Na minha opinião, o avô tem uma história clássica: a de um homem bruto que se torna sensível, um cowboy no estilo John Wayne nos filmes de Ford. Leia essa premissa: um homem que vive nessa cultura de caça às baleias, tem seus amigos e inimigos, mas, em um certo dia, sofre um acidente — vítima de uma baleia branca — e é nesse contexto que tem uma epifania. A caça passa a ser algo com que ele não concorda mais e, a fim de salvar a natureza, torna-se um militante da causa. Ironicamente, a caça é o único sustento dessa cidade — e como ela ficaria se essa cultura acabasse? O povo se rebela contra ele, planeja seu assassinato e, no fim, ele se isola e nunca mais é visto. Esse herói trágico vira uma lenda.
Percebe como a narrativa se torna muito mais profunda, com dilemas reais e, de certa forma, um grande épico ambientalista? Inclusive, a história não seria a do “bem” contra o “mal”, e sim, uma trama cinzenta, dúbia, honesta e real. Contudo, o que temos é um outro filme que ainda consegue intrigar, dado que é extremamente chamativo assistir a inversão natural da vida: em que um pai perde o filho e seu sobrinho precisa enterrá-lo para finalizar essa dívida natural.
Esse grande peso dramático que o texto impõe, não é acompanhado pelo ator Gabriel Leone provando por A + B sua limitação como grande fio condutor da obra. Quando fala sobre seu passado, verbalizando palavra por palavra o que teve que largar pra seguir seus objetivos de vida, não existe nenhuma veracidade ou poder de identificação. Se trata de um texto de criação de personagem que nem o ator parece estar alinhado a isso. E isso até me faz questionar o plano sequência da cena de abertura, em que a câmera ignora Leone para se concentrar no monólogo de Nelson Diniz. Será que o ator não estava acompanhando na emoção da cena e isso foi o principal fator para cortar as cenas de reação e fazer aquele plano sequência?
Aproveitando o gancho do plano sequência, uma coisa que me é estranha é o filme ter dois tipos de direção: uma mais visando um cinema de gênero com o uso de travelling suaves, cenas de ação e até na escolha da narrativa detetivesca. Também, existe momentos em que é atribuído uma escassez de planos, focando em algo mais puro, contemplativo, uma câmera que assume até uma perspectiva subjetiva, representando a condição peculiar do protagonista.
O que soa nesses seguimentos é um pecado cinematográfico, a falta de ritmo nesse longa. Não existe condução natural, foco, transições bem feitas, é uma mistura de gosto amargo.
A cena do tiroteio — em que Gabriel leva um tiro de raspão e sai correndo do local — é filmada de um jeito que não transmite o desespero do personagem: tudo é sempre distante, capturado em plano geral. Há, inclusive, uma coreografia e um direcionamento que transformam a cena de desespero em algo quase cômico.
Existe até uma cena semelhante em um filme de David Fincher que citei anteriormente. O contexto é o mesmo, porém a câmera está mais próxima do personagem e acompanha a corrida em um travelling lateral. O que contribui para o desespero é o cenário de uma floresta, em que mal conseguimos ver o personagem de Daniel Craig, tornando difícil distingui-lo entre as várias árvores; e, é claro, a trilha sonora de Trent Reznor & Atticus Ross, que intensifica a ansiedade da situação.
Existem muitos pontos que poderiam ser abordados nesta obra cinematográfica, contudo, já me estende por quase quatro páginas de escrita e meu prazo para o envio está quase acabando. Fico feliz em ver um neo-noir brasileiro como este, porém, ainda há muito no que se aperfeiçoar, especialmente no suspense, porque, na criação de boas imagens, é um êxito do filme; agora, é esperar por uma condução rítmica melhor.

