Entre raízes e rumos – um conto que transforma Doce Árido num encontro

Por Gabi Coutinho

Ela era só uma menina vinda de uma família majoritariamente formada por mulheres, em que a força do feminino nunca deixou dúvidas, pelo bem e pelo mal. Aprendeu cedo que cuidado e dureza podiam habitar o mesmo corpo, que mãos que afagam também sabem apertar. Esperança e cansaço dividem a mesma cadeira. Cresceu ouvindo histórias que começavam sempre antes dela e terminavam depois, histórias de trabalho, de permanência, de quem ficou porque quis e também de quem ficou porque não pôde ir embora.

Carregou isso como bagagem, mesmo quando ainda não sabia que carregava. Passou por muitos lugares em que a simplicidade escondia uma densidade enorme de luta. Casas pequenas com quintais grandes de memória, cozinhas onde o cheiro denunciava que ali havia sobrevivência, não apenas afeto. Lugares em que bastava olhar para entender que havia algo sendo construído com insistência, repetição, resistência. Sempre imaginou gerações que não conheceu, mulheres que vieram antes, que sustentaram silenciosamente aquilo que parecia natural.

Mas foram raras as vezes em que foi de encontro a tudo isso. E, dessa vez, o reconhecimento veio num palco.

De alguma forma, ao entrar, já esperava uma narrativa densa que a conduzisse para um novo mundo — ou antigo, melhor dizendo. Até no que era simples naquele cenário enxergava-se a profundidade de um drama que, por um lado, estava para começar e, por outro, já vinha de muito tempo. As portas e janelas, desgastadas mas resistentes — como as relações — pediam socorro e, ao mesmo tempo, afirmavam: ainda estamos aqui. A luz conduzia, desde o início, a caminhada.

O trabalho braçal para erguer as sacas reforçava a força e também o sofrimento. E cada vez que se tentava fazer isso enquanto outro afazer surgia, ou que um filho pedia atenção, vinha o resgate da potência de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Cada corda amarrada simbolizava uma vitória, mas estranhamente parecia tornar o objetivo final ainda mais distante. Estariam ficando mais livres ao concretizar seus feitos ou ainda mais presas às exigências que recaíam sobre elas?

Ali, naquele palco, eram três mulheres que pareciam representar uma multidão silenciosa. Havia nelas uma humanidade fadada a continuar, mesmo quando tudo indicava exaustão, e cada gesto vinha atravessado pelo passado e pelo futuro. Moviam-se com a força de quem sustenta, porém com a fragilidade de quem quase não aguenta, presas a um ciclo que não é exatamente prisão nem escolha: é algo entre destino e herança. Nos silêncios, nos olhares que se cruzavam e se evitavam, surgia a sensação de que aquelas três não caminhavam apenas por si, mas por uma linhagem inteira condenada a seguir, mesmo quando seguir significava permanecer.

Havia também uma promessa distante de atravessar fronteiras. A exportação, o estrangeiro, soava como salvação, como divisor de águas, como caminho inevitável. Ao mesmo tempo, crescia a sensação de uma dependência construída pela própria ilusão, tornando-as órfãs de novos caminhos. Turbulências físicas e psicológicas se aproximavam, se materializavam em proposta cênica, e intensificavam tudo, enquanto cada passo em direção a um novo horizonte parecia distanciar uma linhagem de suas raízes.

Da plateia, a menina via-se quase sem ar, pensando em como às vezes é necessário romper alguns laços, ao mesmo tempo em que refletia que as coisas parecem mais simples quando vistas de fora. Perguntou-se quantas vezes não se sentiu fadada a repetir padrões enquanto, aos olhos dos outros, isso não fazia sentido algum. Tudo isso através de um universo que até entrar naquele teatro parecia tão distante, e que agora certamente possuia um lugar na sua mente e no seu coração.

Há processos que não são lineares, nem gentis, nem fáceis de nomear. Só a gente conhece nossa própria realidade. Mas ainda bem que através da arte, tantos caminhos podem se cruzar.

Se pensar bem, é árido.
Mas sem dúvida alguma, é doce.

Foto de capa Divulgação Mostra Insubmissa

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