Entre Peça sobre Peças, os reconhecimentos de uma vida real

Por Gabi Coutinho

Entrei sem anúncio. Como quem chega na casa de alguém e percebe, pelo jeito que as cadeiras estão dispostas, que alguma coisa já iniciou antes de você.

Em “Peça sobre peças”, não existe exatamente um começo: existe um convite silencioso. Uma energia que atravessa o espaço antes mesmo de qualquer fala. Até que “de repente não mais que de repente” você já está dentro, não como espectador distante, mas como alguém que partilha daquele acordo delicado: o de ver o teatro acontecendo enquanto ele ainda respira.

O metateatro está ali, exposto, ensaiado, quase como um mecanismo aberto. Confesso que de início até causando certo “estranhamento”, mas logo transformando-se em um jogo afiado entre os atores, com uma precisão tão sensível que qualquer incômodo se dissolve. Vira prazer. Vira cumplicidade. Um equilíbrio entre o ser humano em sua natureza e o personagem, que cada a cada instante, vira presença. Uma potência difícil de explicar, com verdade cênica elevada à milésima potência. Não há proteção. Ou melhor, há, mas ela é translúcida. Vaza. Mora nela uma honestidade rara, sustentada com uma leveza que não pesa nunca. Você acredita. Não por ilusão, mas por reconhecimento.

Isso se potencializa no próprio espaço, com a plateia em círculo, tão próxima que não há para onde fugir. Em alguns momentos, o próprio elenco se senta na roda, ocupando os mesmos lugares, diluindo qualquer hierarquia e deixando evidente: estamos todos falando de um mesmo lugar.

Eles jogam juntos. E isso basta.

Há algo especialmente bonito em perceber ali diferentes gerações, trajetórias e tempos de palco. Corpos que carregam histórias, repertórios, cicatrizes e celebrações. Alguns eu reconheci de imediato — e sorri com sensação de reencontro, quase como esbarrar em alguém querido no meio da rua. Outros me provocaram de um jeito diferente, me cutucando por tempos e narrativas que eu não conhecia mas gostaria (e muito provavelmente deveria) conhecer. Uma mistura de sentimentos evidenciando as muitas camadas deste projeto, que escancaram como o que está em cena não é só o presente: é também tudo o que já foi vivido ou mesmo o que ainda está por vir.

Em uma construção simples, não há ornamento tentando preencher vazios. Só o essencial: corpo e escuta.

Talvez por isso a identificação venha tão forte, tão direta. Eu ri. Ri de verdade (às vezes achando graça, outras por desespero). Depois chorei, quase sem perceber a curva entre uma coisa e outra. Em algum ponto, ainda, fui tomada pela raiva, daquelas que só aparecem quando a cena toca em algo que a gente conhece bem demais. As ameaças, os descontos em cachês que nem sequer existem, a toxicidade em alguns ambientes, a falta de transparência… dores que, infelizmente, grande parte dos artistas conhece muito bem.

A dramaturgia se constrói como um mosaico de memórias e experiências — não para contar uma história linear, mas para revelar camadas do fazer teatral que se sobrepõem, se contradizem. Há uma investigação constante em curso, quase como um “inquérito teatral”, onde as perguntas não buscam respostas definitivas, mas abrem frestas. Perguntas que atravessam a cena e chegam em cada um de nós.

A cada fala, fui percebendo que no fundo, “Peça sobre Peças” não é sobre as peças em si. É sobre o que fica delas seja como plateia, como profissional, ou até mesmo como sonhador. E quando, em um desses momentos, surge a pergunta “por que você faz isso?”, ela ecoa naquele sentimento tão conhecido de quem vive da arte: há como ser outra coisa? E se houver, quanto já não somos sem que se saiba?

Junto a tudo isso, há ainda uma expectativa quase infantil no ar de descobrir o convidado da vez. São 14 artistas diferentes ao longo da temporada, e você simplesmente não sabe quem vai encontrar até o momento em que a cena revela. Há algo de encontro às cegas nisso, de risco, de presente. Essa surpresa vem também com uma vontade imediata de voltar. De ver de novo. De assistir outras variações desse mesmo encontro vivo.

Saí com a sensação de que algo continuava. Talvez porque não seja exatamente uma peça. Talvez porque sejam muitas. Ou porque, de algum jeito difícil de nomear, ela segue sendo ensaiada dentro da gente.

Gabi Coutinho assistiu Peça sobre Peças no Teatro Cleon Jacques no dia 19 de abril. A peça segue em cartaz até 03 de maio, com sessões de quarta a domingo. Gabi com certeza irá assistir de novo, e afirma que a peça é uma experiência quase que obrigatória, especialmente para quem ama e vive o teatro em si mesmo.

Foto Vitor Dias

Ficha Técnica

Concepção e direção: Fernando de Proença

Dramaturgia: Francisco Mallmann

Elenco: Christiane de Macedo, Diego Marchioro, Geyisa Costa, Patricia Cipriano e Ranieri Gonzalez

Participações especiais: a cada apresentação, um/a artista de teatro de Curitiba rememora uma obra marcante de sua trajetória.

Interlocução artística: Eleonora Fabião

Iluminação: Beto Bruel

Cenário: Érica Storer

Cenotécnico: Fabiano Hoffmann

Sonoplastia: Vadecoo Schetini

Figurino: Diego Marchioro, Patricia Cipriano e Ranieri Gonzalez

Coordenação técnica e operação: Semy Monastier

Projeto gráfico: Julia Brasil

Assessoria de Imprensa: Linha Comunica – Paula Melech

Foto: Vitor Dias

Video: Alan Raffo

Libras: Talita Grünhagen

Estratégia e Social Mídia: Gabriela Berbert

Diretor de Produção: Diego Marchioro

Produção executiva: Cindy Napoli

Estagiária: Alice Alegria

Realização: Rumo de Cultura

Serviço

Local: Teatro Cleon Jacques

Temporada: 16 de abril a 3 de maio de 2026

Horários:

Quarta a sábado, às 20h

Domingos, às 17h

Entrada gratuita

Retirada de ingressos na bilheteria do teatro 1 hora antes de cada sessão.

Serão disponibilizados 50 ingressos por apresentação.

Ação complementar:

Conversa (sem fim), com Eleonora Fabião e artistas do trabalho

2 de maio, às 16h

Entrada gratuita (retirada 1h antes)

Foto de capa Vitor Dias

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