Bonito. Sensual. Devastador. Real. Místico. Arte. Cinematográfico. Poético. Inteligente. Intrigante. De referência ao cineasta francês Rivette ao mito grego de Orfeu e Eurídice. Tudo isso misturado, passado e entregue na forma de filme, e é este que dedico meu tempo para escrever. “Retrato de uma Jovem em Chamas” é um clássico moderno instantâneo. Desde seu lançamento em Cannes no ano de 2019, premiado como melhor roteiro do festival, segue sendo um daqueles casos raros de a cada assistida, a história comunicar e ter seus efeitos ainda mais aflorados.
Os temas que giram em torna dessa obra se resumiria numa linha de rodapé nos livros de história ou talvez, nem isso. Não só por conta de ser uma retratação de uma relação super intima e extremamente secreta, como também ficarão eternamente na sombra dos homens. Marianne, uma pintora jovem que usa o nome do pai para alcançar oportunidades que uma mulher nessa época, dificilmente teria. Já Héloise, está prometida a um homem cujo nunca o conheceu e se resumirá apenas a isso, uma esposa, uma futura mãe e sua imagem associada a ele. E o que vemos nos livros de história? É raro encontrar uma figura real feminina ativa, e é comum ver exploradores, aventureiros, políticos, governadores, etc…
Então, o que a diretora Céline Sciamma nos oferece, é essa nota de rodapé que na verdade, é muito mais forte do que qualquer épico político e exploratório, visto e recitado como discurso de liberdade ou patriotismo. E até nos faz questionar, se todos esses heróis, não tinham alguém por trás os ajudando, só que é claro, elas nunca foram creditadas por essas conquistas.
Foram períodos conturbados, mas não vou dizer que o tempo presente é muito diferente; seria ignorância afirmar isso. Contudo, isso mostra que essa relação entre mulheres — não só no romance entre a pintora e a noiva — desenvolveu o poder de se comunicar em silêncio, de se reconhecerem através das dores e frustrações e até no uso da arte e de outras línguas para isso. O filme nos apresenta várias situações em que a arte aparece como forma de comunicação, seja nas pinturas, seja no encontro das mulheres do vilarejo para o canto em conjunto, parecendo um organismo coletivo. Há também o uso de outra língua, como no caso da mãe de Héloise, que, em determinado trecho, fala em italiano para que ninguém a entenda.
São personagens extremamente inteligentes, e isso revela a sagacidade do roteiro, em que simples diálogos contam toda a história sem a necessidade de uma superexposição. Veja este exemplo: “Você acha que consegue pintá-la?”, perguntou a serviçal para Marianne, que estranha: “Por que essa pergunta?”. Nesse diálogo sutil, já se introduz a difícil tarefa de pintar Héloise, evidenciando como essa mulher pode ser desafiadora, resistente e, provavelmente, já tivera outros que tentaram e falharam nesse ofício.
Mas é lógico que Marianne conseguiria esse feito, se não fosse por isso, não teria filme. Contudo, essa jornada infernal literalmente a custou uma aproximação amorosa com sua musa e infelizmente, já estava condenado desde o início a ser um romance com fim. O fator que evidencia isso é o figurino de Héloise que sempre se encontra em tons azuis, mostrando uma possível melancolia e estagnação. Para além disso, também, é o mesmo figurino que sua mãe usa, com o mesmo tom azul, ou seja, não existe rompimento nas normas sociais. A atriz da mãe também emana um aspecto infeliz, nunca parece estar contente ou satisfeita, a imagem de uma vida sem movimento apesar de deter uma independência e controle nos negócios da família, especialmente aquele envolvendo sua filha.
Nessa simples observação, podemos concluir que é um filme que emula imagens, espelhos e cópias. Junto a isso, há o papel de voyeur que a artista assume em relação à sua musa, para estudá-la e criar o retrato.
O que me encanta mesmo nessa obra, além do romance, é a presença da arte nessa história. Inicialmente, não havia nada ali a não ser um trabalho a ser entregue. Porém, conforme a relação delas evolui, o sentimento é criado: há intriga, emoção, inspiração, tato, olfato, paladar… O trabalho, enfim, se torna arte, manifestação, política, comunicação. É o registro extraoficial dessa nota de rodapé. Somos testemunhas desse contrato entre uma artista e sua musa nesse ateliê. E, definitivamente, não é algo romantizado, dado que a musa é essa figura rebelde que contesta e desafia a artista, criando, assim, o discurso de que, para a arte ser feita, é preciso de dois ou mais — seja em um trabalho conjunto ou até como inspiração.
