O estudo da revista International Review of Psychiatry apontou que o risco de pessoas LGBTQIAPN+ usarem drogas é 2,3 vezes maior do que os héteros e de forma precoce. A pesquisa foi realizada com 1.492 jovens de São Paulo e Porto Alegre. Diante de uma sociedade doente, qual o papel da cultura na transformação desse cenário?
A disparidade estatística é um mapa da exclusão. Segundo a pesquisa, 48% dos jovens da comunidade relataram uso de drogas, contra 37% dos heterossexuais. No recorte da maconha, a distância é de 40% contra 27%. Na cocaína, a diferença é de 4 pontos percentuais (7,4% no total). Até no álcool, a droga socialmente aceita por excelência, a margem se mantém superior (85,9%).
Esses números não são escolhas recreativas; são sintomas. Jovens LGBTQIAPN+ vivem uma “guerra fria” cotidiana que frequentemente transborda para a violência física ou para o colapso mental. O processo de autoaceitação, já denso por natureza, é sabotado por microcomunidades hostis, bullying e o terror do abandono familiar. Quando a realidade se torna insuportável, o entorpecente surge como a única tecnologia disponível para anestesiar uma dor que a gramática social ainda não sabe nomear.
Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2019 revelou que a prática artística ativa neurotransmissores como a dopamina e serotonina, responsáveis pela regulação do humor e prazer. Se comparado com outro estudo, do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), os dados apontam que a cultura combina estímulo cognitivo, interação social e atividade física, criando uma barreira invisível contra o declínio mental, reduzindo em até 48% as chances de quadros depressivos.
A arte permite que o paciente exteriorize sentimentos que são difíceis de verbalizar, funcionando como uma “catarse” psicanalítica, como apontou um terceiro estudo analisado, o PubMed Central (PMC).
É fácil e primitivo apostar em políticas de segurança baseadas no braço armado e no proibicionismo. É um método que ignora a dimensão humana do usuário. Afinal, ninguém busca a autodestruição por livre vontade; busca-se a fuga de uma normalidade insuportável.
A falha mais grave reside na gestão cultural. As Leis de Incentivo detêm a chave da transformação, mas sofrem de um gargalo de distribuição ético. Enquanto orçamentos milionários financiam “bruxas verdes” ou “ogros de pântano” em produções de apelo puramente comercial, as periferias existenciais onde a juventude LGBTQIAPN+ permanecem desassistidas.
É diante desses dados que os agentes culturais devem se debruçar em seus processos artísticos. Na construção de uma realidade artística que aprofunda o rompimento de uma dor inimaginável, mas pouco compreendida. A dor de uma solitude, de um medo insensível que beira a psique humana. Quando a cultura deixa de fazer seu papel social, de se preocupar em transformar a jornada daqueles que a regem, então, ela falhou enquanto organismo vivo.
Trazer para a linha de frente dessas políticas, projetos que rompem com esse problema diretamente é o caminho mais ideal para uma solução que atende os três estágios mercadológicos: curto, médio e longo prazo. De nada adianta trazer a broadway, se quem canta está lutando para espantar os males que a própria sociedade lhe impõe, antes que seja tarde demais.
Foto de capa: Reprodução Festival de Curitiba (Rodrigo Leal)
