Espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”, inspirado em história real de crianças escravizadas décadas depois da abolição, está em cartaz no Sesc Tijuca

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Em 1930, cerca de 50 crianças negras foram retiradas de um orfanato no Rio de Janeiro e  cresceram escravizadas em uma fazenda no interior de São Paulo. É a partir dessa história real que surge o espetáculo Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar, provocando uma reflexão crítica sobre a continuidade da necropolítica que afeta os corpos negros na atualidade. Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, o espetáculo está em cartaz no Sesc Tijuca até o dia 22 de março. Com apresentações de quinta a sábado, às 19h. Aos domingos, às 18h, as sessões contam com acessibilidade em Libras. Os ingressos são gratuitos para o público do PCG e variam entre R$15 (meia-entrada) e R$30 (inteira).

Com direção de Roberta Estrela D’Alva, dramaturgia de Lucas Moura e direção musical de Dani Nega, a obra do O Bonde é uma das mais importantes montagens surgidas na cena paulistana durante a pandemia, sendo ganhador na categoria ‘Melhor Espetáculo Virtual de 2021’ no prêmio APCA. Além disso, é sucesso de público e crítica em sua versão presencial e recebeu indicação ao Prêmio Shell de ‘Melhor Dramaturgia’.

Livremente inspirado no documentário Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil, Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar é um espetáculo minimalista e potente, que aposta na força da atuação e da linguagem. Sem adereços de cena, o espetáculo se constrói a partir de quatro intérpretes em cena e uma caixa preta. Nesse espaço aparentemente vazio, luz e som ajudam a compor a narrativa, como destaca o ator Filipe Celestino, que também é co-fundador do O Bonde: “É um espetáculo que evoca uma energia muito densa. A luz revela, esconde, opina e constrói atmosferas. Já a música dá o pulso da narrativa. A ideia é que o espectador, em muitos momentos, tenha a sensação de estar diante de um quadro ou até mesmo de um filme acontecendo ao vivo.”

Influenciado pelo teatro hip-hop, pelo spoken word e pela cultura das batalhas de poesia, o espetáculo também investe no ritmo, na musicalidade e na presença firme das vozes em cena, transformando som e fala em motores dramatúrgicos. “Os beats acompanham os monólogos e diálogos e dão o pulso da narrativa. É o ritmo da palavra que conduz o espectador por essa experiência”, explica Celestino. A encenação cria uma experiência sensorial que se distancia do teatro tradicional. “É um espetáculo incomum, que desperta curiosidade”, destaca.

Em Desfazenda, o desejo de ser enterrado fora deste lugar embranquecido, hegemônico, violento e aprisionador é mais do que o sentido literal de ser colocado abaixo da terra após a morte. “É sobre romper com estruturas. É sobre a possibilidade de existir com dignidade e garantir um encaminhamento digno e justo àqueles que tiveram suas vidas tiradas por um sistema cruel profundamente enraizado”, reflete o ator.

A temporada no Rio de Janeiro adiciona uma camada ainda mais simbólica à esse espetáculo paulista. Afinal, a capital carioca foi o ponto de partida da trágica história real que culminou em São Paulo. “O Rio carrega uma rica herança cultural afro-brasileira, mas também foi um dos principais centros do tráfico de pessoas escravizadas. Apresentar o espetáculo aqui é também um gesto de ressignificação dessa história. Além disso, sempre foi um desejo do O Bonde estar no Rio. A gente sabe da potência artística da cidade e está muito ansioso para viver esse encontro, especialmente com as coletividades negras do teatro local”, conta Filipe.

Sinopse

Segunda montagem d’O Bonde e primeiro espetáculo adulto do coletivo teatral paulistano, a o espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar” narra a história história das personagens 12, 13, 23 e 40, pessoas pretas que foram salvas da guerra por um padre branco quando eram crianças, cresceram em uma fazenda, e cuidam das tarefas diárias, supervisionadas por Zero, um homem preto um pouco mais velho. O padre nunca sai da capela, a guerra nunca atingiu a Fazenda, e sempre que os porquês são questionados, o sino soa e tudo volta a ser como antes. Ou quase sempre.

Foto José de Holanda

Serviço

Data: 26 de fevereiro a 22 de março

Horários: Quintas a sábados, às 19h; Domingos, às 18h

*Sessões de domingo com acessibilidade em Libras

Local: Sesc Tijuca – Teatro II

Endereço: R. Barão de Mesquita, 539 – Tijuca, Rio de Janeiro – RJ

Classificação indicativa: 14 anos

Ingressos: Gratuito (PCG), R$15 (meia-entrada), R$21 (habilitado Sesc), R$27 (convênio), R$30 (inteira)

Ficha Técnica

Direção: Roberta Estrela D’Alva

Dramaturgia: Lucas Moura

Elenco: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Joy Catarina/Marina Esteves

Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa

Direção Musical: Dani Nega e Roberta Estrela D’alva

Produção Musical: Dani Nega

Músicas “Saci” e “Tocar o Gado”: Dani Nega e Lucas Moura

Sample “Menino 23”: Belisário Franca

Treinamento e Desenho de Spoken Word: Roberta Estrela D’Alva

Cenografia e Figurino: Ailton Barros

Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalho

Desenho de Luz: Matheus Brant

Montagem de Luz: Matheus Brant e Leticia Nanni

Operação de Luz: Matheus Brant , Nayka Alexandre e  Leticia Nanni

Técnico de som: Hugo Bispo

Cenotecnia: Douglas Vendramini e Helen Lucinda

Produção: Corpo Rastreado

Realização: O Bonde

Via Assessoria de Imprensa: Monteiro Assessoria

Foto de capa José de Holanda

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