O Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, também é uma oportunidade para incentivar o contato com a literatura desde cedo. Além de estimular a imaginação, os livros podem ajudar os pequenos a compreender sentimentos, conhecer diferentes realidades e desenvolver um olhar mais atento para o mundo ao redor.
Para marcar a data, reunimos cinco obras da literatura infantil brasileira que exploram temas como afeto, ancestralidade, autoestima, consciência ambiental e proteção à infância. Com propostas narrativas distintas, os títulos oferecem caminhos para abordar questões importantes de maneira acessível às crianças e, em alguns casos, abrir espaço para conversas entre leitores, familiares e educadores.
“Benjamin”, de Denise Fleury

Com ilustrações de Yasmin Hassegawa, “Benjamin” aborda o vínculo afetivo entre mãe e filho e os sentimentos que envolvem a separação. A narrativa utiliza a imagem de dois elefantes com as trombas entrelaçadas como representação dos laços que unem os personagens, construindo uma abordagem sensível sobre afeto, segurança emocional e relações familiares.
A obra também propõe uma reflexão sobre o papel da literatura como espaço de encontro entre adultos e crianças, favorecendo conversas sobre sentimentos e vínculos.
Denise Fleury é psicóloga, pedagoga, mestre em Educação e psicanalista. Natural de Goiânia, a autora também assina “Senhora M e outros contos” e “Quem conhece os gatos do vovô?”. Seu trabalho inclui rodas de conversa em escolas e centros socioeducativos de Goiás. Em 2025, recebeu o Diploma de Mérito Cultural do Prêmio Buritis, na categoria Livro, Leitura e Literatura. “Benjamin” também passou a integrar as leituras do curso de formação de professores da educação infantil da Secretaria Municipal de Educação de Goiânia.
“Aspino e o boi”, de Gessiane Nazario

Publicado pela Sophia Editora, o livro marca a estreia de Gessiane Nazario na literatura infantil. Com ilustrações de Letícia Figueiredo, a obra resgata memórias das comunidades quilombolas da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, a partir da história de Aspino, lavrador que se dedicava à caça e ao cultivo de suas plantações.
Sua rotina muda com a chegada de um fazendeiro e de bois enviados para intimidar as famílias quilombolas. A partir desse conflito, a narrativa recupera histórias ligadas à luta pela terra e à memória dos descendentes de pessoas escravizadas na Fazenda Campos Novos.
A história tem raízes na própria trajetória familiar da autora. Quilombola da Rasa, em Armação dos Búzios (RJ), Gessiane é neta de Aspino, bisneta de Bibiana e tataraneta de Madalena, mulher trazida de Angola para o Brasil em um navio negreiro. As histórias transmitidas pelos mais velhos são parte fundamental de sua produção, que busca preservar e compartilhar a memória de sua comunidade.
Além da literatura infantil, Gessiane assina “Revolta do Cachimbo, a luta pela terra no Quilombo da Caveira”, livro baseado em sua tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Cyber PANC e Só Zé: o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas”, de Mariana Brecht

A crise climática e a necessidade de repensar a relação com o meio ambiente estão no centro do trabalho de Mariana Brecht. Em “Cyber PANC e Só Zé: o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas”, a escritora propõe um exercício de imaginação ecológica que convida os leitores a ir além da observação dos problemas ambientais e experimentar outras formas de se relacionar com o mundo.
A proposta se estende aos cadernos de apoio que encerram o volume, com ferramentas para estimular a participação dos leitores e aproximar as questões ambientais do cotidiano. A obra dialoga com temas como crise climática, ecoansiedade e solastalgia — sentimento de sofrimento provocado pelas transformações ambientais no lugar em que se vive.
Escritora, roteirista, narrative designer de jogos digitais e pesquisadora, Mariana Brecht desenvolve trabalhos que transitam entre literatura, jogos, audiovisual e música. Sua produção é marcada pela linguagem poética, pela experimentação formal e pelo interesse nas relações entre sociedade, natureza e mudanças climáticas.
“O talento do Guará”, de Laís Graf
Como lidar com a insegurança e reconhecer as próprias habilidades? Essa é a questão que conduz “O talento do Guará”, livro de estreia da escritora curitibana Laís Graf.
A história se passa em uma floresta onde os animais se preparam para o tradicional show de talentos. Enquanto os outros participantes se animam com a apresentação, um lobo-guará acredita não ter nada de especial para mostrar e decide ficar de fora. Com a ajuda de uma coruja sábia e de um coelho dançarino, ele começa a descobrir suas próprias capacidades e a compreender que cada pessoa tem seu tempo para desenvolver aquilo que sabe fazer.
Com rimas e situações bem-humoradas, a narrativa aborda autoestima, confiança e valorização das diferenças. A história também reforça a importância de respeitar os próprios processos, sem transformar a comparação com os outros em medida de valor pessoal.
Nascida em Curitiba, em 1992, Laís Graf é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e tem pós-graduação em Escrita Criativa pela Universidade de Fortaleza. Depois da estreia com “O talento do Guará”, em 2022, publicou “Samba de uma flauta só” (2024) e “O segredo dos números” (2025), todos pela Leiturinha. Segundo as informações de divulgação, seus livros já chegaram a mais de 100 mil crianças em todo o Brasil.
“Super Henry”, de Antonio Silvio Sampaio Dória

Publicado pela Editora Abrementes, “Super Henry” aborda a proteção infantil a partir de um tema delicado: o caso Henry Borel. A obra utiliza a literatura como ponto de partida para conversas sobre segurança, confiança e acolhimento, chamando a atenção para a importância de construir ambientes em que as crianças sejam protegidas e possam buscar ajuda.
Ao tratar de uma questão tão sensível, o livro também pode servir de apoio a adultos interessados em dialogar com os pequenos sobre cuidado e proteção, respeitando a linguagem e a compreensão de cada faixa etária.
Antonio Silvio Sampaio Dória tem formação multidisciplinar. É mestre em Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), graduado em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da mesma universidade (FAU-USP). Sua trajetória reúne diferentes campos de conhecimento ligados à arte e à construção de narrativas.
Literatura para imaginar, aprender e compartilhar
As cinco obras mostram como a literatura infantil pode ultrapassar o entretenimento e abrir espaço para conversas sobre experiências individuais e coletivas. Dos vínculos familiares à preservação da memória quilombola, passando pela consciência ambiental, pela autoestima e pela proteção à infância, cada livro oferece uma perspectiva particular sobre questões que fazem parte da formação das crianças.
Neste Dia das Crianças, presentear com um livro também pode ser uma oportunidade de compartilhar histórias, despertar perguntas e construir momentos de leitura em família. Afinal, cada nova narrativa pode ampliar o repertório dos pequenos leitores e ajudá-los a descobrir diferentes maneiras de compreender a si mesmos e o mundo.
