Depois de 77 anos perseguindo o pássaro mais rápido do deserto, Wile E. Coyote finalmente foi recompensado: não conseguiu pegar o pássaro, mas pelo menos ganhou um filme só dele.
Dessa vez, após diversas falhas com os produtos que encomendou, o Coiote resolve processar a ACME e acaba encontrando Kevin Avery, interpretado por Will Forte, um advogado em decadência que praticamente só sobrevive de pequenos trabalhos. O que começa como uma tentativa de conseguir uma indenização acaba se transformando em uma batalha judicial contra a ACME.
O filme já começa trazendo aquele sentimento de nostalgia, resgatando a essência do personagem com perseguições, explosões, muita dor física e, é claro, fracassos. E, para deixar tudo ainda mais especial, o longa chega a resgatar elementos dos desenhos clássicos, mostrando que não esqueceu de onde o Coiote veio.
O humor do filme funciona muito bem, pois o diretor Dave Green resgata a essência do humor universal e atemporal dos Looney Tunes. Dessa forma, o filme consegue agradar diferentes gerações que forem ao cinema, trazendo muitas explosões, dinamites, bigornas e outros elementos clássicos do humor dos cartoons.
O filme também mistura animação com atores reais, mas não se limita aos personagens clássicos enfeitando o cenário. Os elementos dos Looney Tunes também aparecem em objetos que os próprios personagens humanos interagem, fazendo com que o mundo do filme fique muito mais memorável e nostálgico para os fãs dos Looney Tunes.
Apesar de o humor slapstick funcionar e entreter, existem cenas que não precisavam de tantas explosões e poderiam ser engraçadas por outros motivos. Um dos exemplos são as cenas no tribunal, que poderiam explorar mais o humor situacional, com diálogos engraçados e marcantes.
O tribunal também poderia ter sido um ambiente mais explorado, principalmente para gerar debates sobre por que deveríamos nos importar com os cartoons se eles conseguem se recuperar completamente depois de serem esmagados, explodidos ou sofrerem algum outro acidente. Essa contradição poderia render situações muito engraçadas e, ao mesmo tempo, trazer uma discussão interessante para o filme.
Em determinado momento do filme, dá a entender que o Coiote poderia acabar se tornando o próprio vilão da história, mas o filme escolhe seguir por outro caminho e construir um arco emocional para o personagem. Em vez de tratá-lo apenas como um fracassado que nunca consegue alcançar seus objetivos, o longa mostra alguém determinado, que apesar de todas as derrotas continua tentando e nunca desiste daquilo que deseja.
Outro grande acerto é o Projeto Sísifo, que abre uma porta para discutir a verdadeira natureza desses personagens. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma enorme pedra montanha acima. Sempre que estava próximo de chegar ao topo, a pedra rolava de volta, obrigando-o a repetir a tarefa para sempre. A referência funciona perfeitamente para personagens como o Coiote, Frajola e Tom, que passam suas vidas perseguindo um objetivo que nunca conseguem alcançar.
Dessa forma, o filme transforma uma característica básica dos cartoons o personagem sempre fracassar em algo muito maior. Afinal, será que o Coiote é realmente um fracassado ou alguém condenado a repetir o mesmo ciclo para sempre? Talvez sua maior qualidade seja justamente continuar tentando, mesmo sabendo quantas vezes já falhou.
Assim, Coyote vs. Acme, mesmo tendo alguns problemas com um roteiro previsível e o excesso de humor slapstick em determinadas cenas, consegue se destacar por sua ideia criativa. O filme funciona como uma produção para diferentes gerações e apresenta um novo ponto de vista sobre um dos personagens mais icônicos dos Looney Tunes, mostrando que, por trás de tantos fracassos, existe um personagem determinado que simplesmente nunca desiste.
