Desde que foi anunciada a continuação de “A Rede Social” – um dos melhores filmes do século XXI –, era inevitável a desconfiança em relação ao longa. Ao mesmo tempo, criou-se uma expectativa com o retorno de Aaron Sorkin ao roteiro, ao lado do diretor de fotografia Jeff Cronenweth. E, é claro, com grandes estrelas integrando o elenco, como Jeremy Allen White – da premiada série “The Bear” –, Mikey Madison – vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Anora” – e Jeremy Strong – da aclamada série “Succession”.
As expectativas poderiam ter sido reduzidas. Contudo, durante o marketing do filme, muito se associou a produção a uma continuação direta do primeiro longa, desde a criação de pôsteres com a mesma identidade visual até o uso da música de Trent Reznor e Atticus Ross, que, estranhamente, não retornam para a sequência. Mas não foram apenas eles! O mais importante foi a ausência de David Fincher na direção, deixando tudo nas mãos do próprio roteirista.
O cenário para a adaptação? O grande depoimento de Mark Zuckerberg no Senado americano, em 2022, por conta do algoritmo malicioso que o antigo Facebook, agora Meta, utilizava – e ainda utiliza – para manter seus usuários por mais tempo na plataforma. Não só isso, mas também os bastidores dessa investigação, fotografias de documentos secretos, informantes e uma verdadeira trama de espionagem.
A referência aqui é bem clara: “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula. Uma investigação jornalística em meio ao escândalo de Watergate. Contudo, o filme de Pakula se sobressai em todos os aspectos – não é à toa que é um clássico do cinema –, mas o principal deles é a construção dos personagens, acompanhada da química que conduz a narrativa.
Sorkin, como roteirista, tem um vício extremamente irritante: criar personagens extremamente geniais. Porém, quando mal utilizados, eles acabam se tornando insuportáveis pela excentricidade de cada um. Em “A Rede Social”, tudo está equilibrado até o fim da trama. Aqui, chega a ser antipático, exagerado, cafona e clichê. Tudo isso é acentuado pelos diálogos cheios de referências, que dão voltas e voltas sem chegar a resolução alguma.
O que Jeff Horowitz (Jeremy Allen White) e Frances Haugen (Mikey Madison) poderiam ter de Bob Woodward e Carl Bernstein, de “Todos os Homens do Presidente”, seria a genialidade, a empatia e até o charme, corroborados pela excitação de um acontecimento a ser noticiado. A busca do furo de reportagem. Infelizmente, cansamo-nos a cada fim de diálogo, e o que queremos é que cada um desses personagens exploda na tela. Ah, não só eles, mas também todo o elenco de apoio, principalmente no prólogo, com uma cena extremamente exagerada e previsível.
Para além da escrita, que costuma ser o principal alvo quando olhamos para uma história, há, para mim, outro ponto fundamental: a direção cinematográfica de Aaron Sorkin. E quem diria? Como pode ser um filme tão regrado e preso ao modelo mais básico? Plano e contraplano, planos abertos e fechados, e só. Soma-se a isso a decepcionante fotografia de Jeff Cronenweth, que nem parece ser o mesmo profissional que colaborou no longa anterior e em tantos outros, como “Clube da Luta” e “Garota Exemplar”. Um filme no estilo papai e mamãe, só que sem tesão e prestes a se divorciar, de tão previsível que se tornou. Sorkin até parece sentir medo do próprio texto ao apostar em uma narrativa não linear (misturando passado e presente) e, preocupado com o espectador, cria um design de linha do tempo com cara de PowerPoint.
Claro que, apesar de o filme ser horrível, sua mensagem é muito importante e necessária nos tempos atuais:
Estamos em 2026, no período pós-eleitoral no Brasil, e muito se falou sobre o engajamento nas redes sociais, especialmente em conteúdos que privilegiam a pseudodireita, apelidada de bolsonarismo. Conteúdos agressivos, que claramente ferem os direitos humanos, parecem atingir mais pessoas, unindo-as e, de certa forma, fazendo com que suas vozes sejam mais ouvidas do que outras. Isso se manifesta tanto nos ataques quanto na disseminação de fake news.
Pouco mudou desde o que foi exposto em 2021 e 2022, cenário que originou esse filme. Inclusive, no dia 21 de outubro de 2026, a ONU alertou sobre o desequilíbrio digital nas eleições brasileiras em relação à empresa Meta. O caso apresentado no longa é interessante: por meio desse circo digital e de um público fiel ao scroll, tornou-se necessário produzir conteúdos extremos. Isso prende. E, por acaso, também forma.
É quase como o processo de tortura psicológica de “Laranja Mecânica”, só que, dessa vez, não sabemos que estamos sendo induzidos a pensar de determinada maneira. Fazendo essa analogia, o antigo Facebook provavelmente foi responsável por alimentar – e não criar, pois foi apenas um dos fatores! – o antipetismo, a narrativa da “esquerdalha maldita” e o famoso terror da Lei Rouanet, com artistas “mamando na teta do governo”.
Esse longa é importante, principalmente por ser um projeto blockbuster, com grandes estrelas de Hollywood, um enorme ímã de público e a proposta de expor um fato sob a forma de entretenimento.
Contudo, faltou ritmo, faltou condução, faltou trilha sonora, faltou alguém para mediar o que deveria ser retirado do roteiro e como deveria ser filmado. Faltou… David Fincher.
