Antigo leprosário na Amazônia ganha história em quadrinhos de roteirista da Turma da Mônica

Tempo de Leitura 3 minutos

Banhada pelo Rio Negro e localizada a menos de 40 minutos de Manaus, a Vila de Paricatuba guarda uma das memórias mais marcantes da Amazônia. No século XX, o local funcionou como um leprosário, que era uma colônia/hospital de isolamento compulsório para onde eram enviadas as pessoas diagnosticadas com hanseníase (antigamente chamada de lepra), separando-as da sociedade para evitar o contágio. Antes disso, o imponente casarão de Paricatuba também abrigou um Liceu de Artes no auge da Borracha e um presídio.

Hoje, com suas ruínas históricas abraçadas pela vegetação amazônica, a comunidade se reinventa por meio do Turismo de Base Comunitária (TBC) e tem sua trajetória resgatada nas páginas do gibi “Paricatuba, a Vila das Mil Histórias”. A publicação é assinada pelo cartunista, escritor e roteirista Romahs Mascarenhas, artista indicado aos prêmios Jabuti e HQMix que integra a equipe da Mauricio de Sousa Produções, onde escreve histórias para a Turma da Mônica.

Uma aventura sobre raízes, afeto e ancestralidade

Longe de ser apenas um registro documental, a publicação utiliza a linguagem dinâmica dos quadrinhos para conectar diferentes gerações ao patrimônio imaterial da vila. A trama acompanha um garoto de Manaus que, ao perceber a rotina corrida do pai na capital, decide viajar sozinho até Paricatuba para conhecer a avó que nunca viu.

Ao desembarcar na vila, o protagonista encontra familiares, novos amigos e moradores que o acompanham em uma jornada de descobertas pela memória do território, revelando as camadas históricas do lugar e o cotidiano da comunidade atual.

“O gibi acaba sendo uma declaração de amor a Paricatuba, não apenas por contar a história do leprosário, mas por mostrar a cidade de hoje, sua gente e seu modo de vida. A mensagem é também sobre esse amor pelo lugar de onde você veio e a importância de se reconectar com as próprias raízes e com a sua história. Isso aparece na trajetória da família, em que o pai sai da cidade e nunca mais volta, mas o filho faz o caminho de volta para conhecer a avó e reencontrar esse lugar”, destaca o autor Romahs Mascarenhas.

Pesquisa documental e valorização comunitária

Para construir a narrativa e os personagens, Romahs combinou levantamento histórico, registros fotográficos e imersão no território. A obra reúne figuras históricas do final do século XIX e início do século XX a personagens ficcionais e moradores reais da vila, como a professora Vera, moradora que auxiliou o artista na pesquisa e foi retratada na história.

A publicação foi lançada oficialmente durante a apresentação da Rota Turística Paricatuba, como parte do projeto Viva Paricatuba (ou Paricatuba Lab), desenvolvido pelo Impact Hub Manaus nas áreas de turismo, capacitação, infraestrutura, comunicação e fortalecimento comunitário.

Perfil da iniciativa no instagram e da hub.

Para Marcus Bessa, um dos coordenadores da iniciativa, a escolha da arte sequencial é fundamental para democratizar o acesso à história:

“A publicação estabelece uma relação entre patrimônio, natureza, cultura e memória, mostrando como esses elementos fazem parte da identidade do território. A escolha dos quadrinhos permite apresentar informações históricas e culturais de forma acessível, incorporadas à trajetória dos personagens e à própria aventura, aproximando passado e presente”, afirma Bessa.

Sobre o autor

Nascido em Parintins (AM), Romahs Mascarenhas iniciou sua carreira em 1996 criando charges e ilustrações para jornais de Manaus. Roteirista da Mauricio de Sousa Produções desde 2011, participou do projeto MSP 50. É autor da graphic novel A Última Flecha (indicada aos prêmios HQMix e ABERST) e do livro infantojuvenil Todos os Meus Gatos de Volta (indicado ao Prêmio Jabuti).

Perfil do autor no instagram.

Sobre o Norte em Quadrinhos

O Norte em Quadrinhos é uma iniciativa que busca valorizar, profissionalizar, divulgar e fortalecer a produção de quadrinhos da região Norte do Brasil. Atuando como vitrine para artistas e coletivos, o projeto promove as obras e o reconhecimento da diversidade de narrativas e estilos que vem da Amazônia, conectando criadores locais a leitores em todo o país através de eventos, premiações, profissionalização e muito mais.

About The Author

Mais do mesmo autor

Cultura: Por que sempre na mira do Bolsonarismo?