Se “Uma Batalha Após a Outra” foi considerado por muitos como o filme da década por se tratar do contexto político conturbado pelo qual os Estados Unidos andam passando, “Digger” é ainda mais direto em sua comédia (justificada), um tanto pessimista, sobre o desastre climático e a ignorância de falsos líderes carismáticos.
Já pelos materiais promocionais, era de se perceber as várias semelhanças com “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, um filme satírico sobre a Guerra Fria e o desastre nuclear. Com poucos cenários, digno de se tornar uma peça de teatro, e atores que interpretam líderes, de novo, carismáticos. Todos eles homens e com a vontade de sempre se empoderarem pelas suas armas (tanto as bombas quanto as genitálias). “Digger” inicia da mesma forma: cenários limitados, problema global, homens poderosos (extremamente pálidos), todos falando de seus pintos da forma mais escrachada possível.
Imagine que Elon Musk descobre que o consumo de água de suas big techs realmente está prejudicando o mundo — ninguém poderia imaginar, certo? —, ele entra em contato com Trump e… Vocês já podem imaginar o que pode acontecer. Isso é “Digger”, uma falsa sátira, mostrando como o mundo pode se tornar vítima quando dominado por alguns homens do alto escalão governamental.
Além dessa crítica ácida, o longa subverte a expectativa em uma quebra do primeiro ato, algo que só tinha visto no cinema iraniano de Abbas Kiarostami, na sua trilogia Koker, e Jafar Panahi, em “O Espelho”. A decisão é um tanto inusitada, porém, em questão de estrutura e do que vinha a seguir, mostrou-se um bom condutor para a história. Os riscos eram inevitáveis, e Iñárritu não teve medo disso. Na verdade, ele não teve medo de arriscar mesmo em grandes sequências, extensas em diálogos e no blocking (é a marcação da posição e do movimento exato dos atores no palco ou no set de filmagem) descontrolável dos atores. Na opinião individual, a minha se encaixa nessa: existe um excesso em tudo — informações, performances, diálogos, tudo! O que deixou a experiência um tanto maçante, mas nunca perdendo o interesse.
Talvez, o que torna a experiência de “Digger” um tanto divisível — para além da temática polêmica — seja a justificativa que Iñárritu traz para abordar uma sátira. Entrando no dilema do motivo da existência da arte como uma espécie de “justiça simbólica”, esses espaços são o que permite ao público ter algum poder diante das tragédias. Engraçado é que esse público é retratado com muita revolta, quase como se estivesse no “minuto do ódio”, do livro “1984”, de Orwell.
Qual seria o intuito do realizador ao estabelecer esses paralelos? O público seria, na verdade, alienado? E mais: quando a arte é, teoricamente, uma forma de se comunicar diante do retrato de uma catástrofe, porém é financiada justamente por aqueles que causam a catástrofe, ela deixa de perder sua autoria diante dessa ironia? Estamos falando sobre poder de controle? Estamos falando de armas ou genitálias masculinas?
O que percebo redigindo essas linhas é que “Digger” é um filme de moral divisível. Não existe uma causa, apesar de ser alfinetada o tempo todo. No fim, somos agarrados a uma trama engajada, mas sua resolução e falta de conflito demonstram um descaso do realizador. Os personagens não são desafiados e nem têm problemas de fato. Iñárritu demonstra muito mais interesse em uma revitalização de “Birdman”, junto da construção de reviravoltas, do que realmente trabalhar na pauta social tão levantada, mas nunca aprofundada de fato.
Esse interesse técnico no roteiro fica evidente até nos materiais da produção, como o uso do VistaVision — tecnologia que voltou com “O Brutalista” e “Uma Batalha Após a Outra”. Existe esse apreço ao celuloide rodado horizontalmente, porém, não cria imagens memoráveis para justificar o seu uso. É apenas a moda do momento.
Em meio a tons completamente divisíveis, a trilha sonora é um destaque, junto ao design de som, existindo um estranhamento constante que lembra os filmes de Yorgos Lanthimos e as composições de Jerskin Fendrix. Destaco a cena do julgamento que, por mais que se estenda, ainda assim, é extremamente memorável.
Por fim, Tom Cruise em mais uma performance de destaque, de extrema dualidade e com as camadas que precisa ter para diferentes momentos do filme, revitalizando seu período mais promissor em Hollywood com “De Olhos Bem Fechados”, “Magnólia” e “Nascido em 4 de Julho”. Uma pena o filme não acompanhar sua maestria e estar em uma corda bamba em diversos momentos. Repito: há quem goste, há quem odeie. Será assim nas próximas semanas e, talvez, nos próximos anos.
