Do folclore ao cinema: por que lendas brasileiras ainda são pouco exploradas nas telas?

Elfos, ciclopes, dragões, fadas, unicórnios, sereias. O que todos estes seres têm em comum? Bom, duas coisas: todos vêm das mitologias e dos folclores de países em sua maioria europeus, e todos tem uma forte representação em diversas mídias – inclusive no cinema. Mas por que, quando se trata do folclore brasileiro, esta representação é tão rara? 

É difícil encontrar um brasileiro que não conheça pelo menos alguns dos mitos e lendas do nosso folclore. Mula sem cabeça, Boto-cor-de-rosa e Curupira são exemplos de figuras já enraizadas no imaginário coletivo do país, geralmente apresentadas a todos nós durante a infância. Figuras essas que trazem histórias repletas de drama, fantasia e ação. 

O potencial cinematográfico desses mitos é evidente. É fácil se perder imaginando como esses seres poderiam ser representados nas telonas. Este exercício foi feito, alguns anos atrás, pelo ilustrador Anderson Awvas, que viralizou com uma série de cartazes que apresentava lendas como Saci, Iara e Anhangá em um estilo inspirado nos estúdios Disney. Anderson é fundador do projeto Folclore BR, responsável por ilustrações, animações, oficinas e podcasts sobre o folclore brasileiro.

Aliás, talvez o maior destaque no audiovisual para estas representações seja a série Cidade Invisível, lançada pela Netflix em 2021. A produção traz como protagonista um policial ambiental buscando respostas sobre a morte de sua esposa. Aqui, o suspense toma conta da narrativa que reinterpreta figuras como a Cuca e a Matinta Pereira. O sucesso da série garantiu que fosse renovada para uma segunda temporada, lançada em 2023. 

O folclore em Hollywood

2026 é um bom ano para se atentar à presença de diferentes mitologias e folclores em Hollywood. Afinal, tivemos o lançamento de A Odisseia, um dos filmes mais comentados do ano e que traz a obra clássica de Homero, composta por volta de VII a. C. A obra é repleta de criaturas como os ciclopes, as sereias e outros seres fantásticos que se popularizaram não só na Grécia como ao redor do mundo.

A Odisseia | Foto Universal Pictures/Divulgação

Mas basta apenas uma breve reflexão para entendermos como o folclore europeu é mainstream: um dos principais personagem da Marvel e um dos integrantes mais relevantes dos Vingadores é o Thor, reinterpretação de um dos deuses da mitologia nórdica e do paganismo germânico. A roupagem moderna, integrada à lógica dos filmes de super-heróis pode nos fazer esquecer de sua origem, que se assemelha em alguns aspectos ao deus Tupã, da mitologia tupi-guarani.

Como exemplo ainda mais direto do folclore nas telonas, temos A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, de 1999, dirigido por Tim Burton e estrelado por Johnny Depp em uma de suas muitas parcerias. O filme é baseado em um conto de mesmo nome escrito por Washington Irving e publicado pela primeira vez em 1820. Conto esse que foi baseado em uma figura folclórica da Europa, com registros encontrados desde a idade média. Oito anos depois, em 2007, foi a vez de Robert Zemeckis dirigir A Lenda de Beowulf, baseado em um poema inglês que faz parte do folclore da Inglaterra.

Ora, se Hollywood vê o potencial cinematográfico das histórias épicas do folclore de outros países, porque no Brasil esta percepção ainda não é a mesma em relação aos nossos mitos e lendas? É claro que as questões financeiras pesam até certo ponto – uma produção com o apelo visual de Cidade Invisível pode custar caro –, mas ainda temos a necessidade de enxergar a imensa riqueza do folclore brasileiro e como ele pode enriquecer ainda mais o nosso cinema. 

Abrindo caminhos

Como já podemos ver nessa breve trajetória sobre o folclore brasileiro no audiovisual, o caminho para uma melhor representação é longo, mas já está sendo trilhado. Além da iniciativa Folclore BR e da série Cidade Invisível, outros idealizadores buscam mostrar novas interpretações de nossas lendas, principalmente nos cinemas. 

É importante lembrar que o folclore brasileiro já teve representações de grande relevância histórica nas telonas. Filmes como O Saci (1951), considerado a primeira produção infantil de grande importância para o cinema brasiliero,  e Ele, O Boto (1987) contaram as histórias de duas das principais figuras mitológicas brasileiras. 

Mais recentemente, em 2018, o diretor Rodrigo Aragão, com extensa carreira no terror, assinou A Mata Negra, filme que trás diversas criaturas fantásticas do imaginário popular brasileiro, mesmo não sendo baseado em apenas um mito. Ainda no gênero do terror, em 2019 tivemos o lançamento de Recife Assombrado, dirigido por Adriano Portela, que se inspira em mitos e lendas urbanas populares da capital pernambucana.

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça | Foto Paramount/Divulgação

Saindo do terror e chegando nas produções infantis, tivemos em 2022 o lançamento da animação Além da Lenda, produzido pelos estúdios Viu Cine que busca reunir quase todas as figuras icônicas do nosso folclore. Antes do longa-metragem, o projeto contou com uma série animada, atualmente disponível para streaming em diversas plataformas.

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