“A Pista” é o melhor curta-metragem da história do cinema. Um experimento de criar um sci-fi blockbuster, mas com as limitações de um filme arthouse — e que limitações, que exponenciaram a história dessa obra. Chris Marker, muito conhecido por ser um grande arqueólogo das imagens, crítico e cineasta experimental, criou essa narrativa espiral sobre obsessão, viagem no tempo e Terceira Guerra Mundial. O barato de tudo isso é o uso não convencional das fotografias para contar essa história.
Cinema é imagem em movimento, consiste em 24 imagens passando no período de um segundo, nos dando a sensação de movimento. Isso é uma regra da linguagem cinematográfica. Porém, Marker utiliza fotos, uma a cada quatro segundos. Na verdade, ainda existem 24 fotos sendo exibidas nesse um segundo, porém, como são estáticas, não existe movimento, dando essa estética sem vida, junto do preto e branco melancólico. E, para quem conhece “A Pista”, é exatamente sobre isso que o filme fala.
Na história, um homem é selecionado para um experimento envolvendo viagem no tempo, com o intuito de pedir ajuda tanto no passado quanto no futuro. O motivo de ser selecionado? Uma imagem. A memória de sua infância, marcada pela imagem de uma mulher bonita e, ao mesmo tempo, pela morte de um homem desconhecido. Talvez, o único resquício de humanidade que lhe restou e que o motivou a viver.
Esse viajante no tempo, que não tem nome, é submetido a vários testes até conseguir voltar ao passado e, por acaso ou destino, encontrar a mulher que marcou sua infância. Durante as idas e vindas ao passado, ele se relaciona com ela. Vão ao museu, aos parques, conversam e dormem juntos.
Contudo, os cientistas percebem que o viajante está se desviando de seu objetivo. Percebendo isso, ele consegue ir para o futuro e conhece um povo de viajantes no tempo. Eles explicam como resolveram a catástrofe e, antes de o viajante voltar ao seu presente, avisam que, muito provavelmente, ele irá morrer quando voltar, dado que já cumpriu sua função. Assim, eles oferecem a possibilidade de ele ficar nesse futuro. Porém, ele recusa e pede para ficar no passado, junto de seu amor. Dito e feito, ele volta para a mesma imagem que marcou sua infância. Corre em direção à sua amada e morre, concluindo que a pessoa que ele viu morrendo na infância era, na verdade, ele mesmo.
Uma narrativa espiral, consistindo na repetição de eventos, mas nunca da mesma forma. Partindo da construção do personagem, de seu apego ao passado e à mortalidade, evidenciando o tempo. Na infância, a paixão e a morte, consideradas dois tipos de morte. No presente, vive pelo trauma do passado e, em seguida, transita pelo tempo, deparando-se também com árvores pré-históricas e a extensão das mesmas. E, por fim, o museu de animais pré-históricos, congelados, mortos ou, senão, retratos de um tempo distante.
Esse início e fim não estão ali por acaso na obra; são temas significativos para definir as obsessões do protagonista. Tanto que a viagem no tempo não é um maquinário consistente e hipertecnológico; é quase um pretexto para o estudo da memória. É bambo. Não existem muletas. E, quando pensamos que estamos, de fato, materializando o passado, dada a sucessão de quadros no espaço de um segundo, caímos. Talvez, ser um viajante do tempo seja sua tentativa de fugir de tal mortalidade. Contudo, o amor é justamente aquilo que o torna mortal.
De certa forma, o que Chris Marker quer criar em “A Pista” é uma mitologia para a explicação de eventos cíclicos da humanidade. Ao invés de poemas, cantos ou gravuras nas paredes, ele se apropria do cinema para fazer isso. Retornando, assim, ao jogo de sombras em uma parede pré-histórica, ou nem tanto assim. Com um narrador consciente, acompanhado de um sound design que não é o ápice da imersão, e sim, algo puxado das radionovelas tradicionais.
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