Só Por Uma Noite transforma uma noite de sexo e superficialidade em uma história sobre conexão

Já pensou viver em um mundo onde só é permitido transar uma vez por ano se não estiver casado? Com uma regra dessas se espera que este dia do ano seja algo especial aquele momento único e especial, certo? Bom, em Só Por Uma Noite esse cenário é apresentado de uma forma completamente diferente. O que deveria ser íntimo acaba virando uma espécie de evento coletivo: todo mundo corre para encontrar alguém, se envolver e aproveitar a oportunidade. E é curioso perceber que, em uma sociedade onde o sexo é tão raro, ele acaba se tornando tão superficial onde quem busca criar conexão vira motivo de piada. 

É nessa premissa que se encontra o casal de protagonistas Allie (Monica Bárbaro), uma cantora que busca uma conexão de verdade na única noite do ano em que pessoas solteiras podem fazer sexo, e Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria que acaba de ser abandonado pela namorada justamente quando pretendia pedi-la em casamento. Allie ainda acredita que isso é possível enquanto Owen já chutou o balde e parte para o tudo ou nada para ficar com alguém. 

Se Mônica Bárbaro está perfeita como Allie, é muito pelo carisma que consegue imprimir à personagem. Allie é uma mulher que busca uma conexão que vá além da superficialidade daquela noite, mesmo quando as próprias amigas questionam sua escolha com um simples “por que você não transa logo?”. É justamente aí que a personagem consegue gerar identificação, especialmente com quem já se sentiu pressionado a transformar desejo em intimidade ou a seguir um ritmo de relacionamento que não necessariamente é o seu. 

Callum Turner, por outro lado, acaba entregando menos. Owen passa boa parte do filme com expressões bastante semelhantes, o que faz sua atuação parecer mais limitada em alguns momentos. Ainda assim, os dois têm química suficiente para fazer o público torcer por eles durante toda a história. E talvez o mais curioso seja que a conexão que o filme cria entre o casal e o espectador nasce justamente das constantes falhas dos dois, transformando cada momento em que eles se encontram se transforma em uma cena memorável. 

Uma das principais ressalvas antes de assistir a Só Por Uma Noite era justamente imaginar como o filme trataria uma noite em que pessoas solteiras podem transar livremente. A premissa poderia facilmente servir como desculpa para transformar a produção em um filme extremamente sexualizado, mas a escolha é justamente não seguir por esse caminho. O longa evita apostar em cenas excessivamente quentes e utiliza o sexo como parte daquele universo, e não como seu atrativo.

Outra escolha interessante é a maneira como o filme apresenta essa regra social. Em vez de transformar a noite em um grande movimento de protesto a oposição aparece de maneira muito mais discreta, principalmente através de pichações contra a lei. O filme parece menos interessado em discutir como aquela sociedade chegou a esse ponto e mais preocupado em mostrar como as pessoas vivem dentro dela.

E isso também permite que a noite tenha outras funções além do sexo. Enquanto grande parte da população está ocupada aproveitando a única oportunidade do ano, outras pessoas encontram maneiras diferentes de utilizar aquele momento, como aqueles que aproveitam a cidade vazia para gravar um filme. São pequenos detalhes que mostram que aquela noite não pertence exclusivamente a quem quer transar, mas acaba alterando completamente a rotina da sociedade.

É justamente nesse ponto que Só Por Uma Noite acaba encontrando sua melhor leitura sobre a sociedade em que vivemos. O filme cria uma situação absurda para falar de algo que, na realidade, nem parece tão distante assim: a transformação do sexo em algo cada vez mais superficial. Em um mundo onde as pessoas teriam um ano inteiro para conhecer alguém, criar memórias, desenvolver intimidade e, só então, levar essa pessoa para a cama, seria de se esperar que aquela única noite tivesse um significado enorme. O que acontece é exatamente o contrário as pessoas estão dispostas a transar com o primeiro que encontrar na frente 

Só Por Uma Noite é, acima de tudo, uma comédia romântica leve apostando no riso de situações absurdas demais como a busca desenfreada por uma camisinha.  A relutância entre Allie e Owen de simplesmente ficarem juntos e a maneira como cada um tenta alcançar seus próprios objetivos enquanto falham constantemente com algo que deveria ser fácil  fazem com que a aproximação entre eles seja muito mais divertida e envolvente com o público.

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