Vindo de uma filmografia bastante precisa, daquele tipo de autor que trabalha com intervalos atrás de intervalos até escolher seu próximo projeto, “Trama Fantasma” é seu oitavo filme. Escrito, dirigido e fotografado por Anderson — acumulando funções para economizar gastos —, acompanhamos o início e o desenvolvimento de um relacionamento entre dois personagens de características fortes. Em resumo, uma mulher chamada Alma (Vicky Krieps) se apaixona por um artista extremamente excêntrico chamado Reynolds (Daniel Day-Lewis), e os dois desenvolvem uma relação bastante esquisita.
Já não é a primeira história em que o diretor trabalha com romances. “Embriagado de Amor”, estrelado por Adam Sandler e Emily Watson, apresenta um casal um tanto esquisito, baseado na ansiedade e na imprevisibilidade dos eventos que cercam a trama. Contudo, diferente de seu romance anterior, em que o externo muitas vezes entra para gerar conflitos para os personagens, “Trama Fantasma” concentra-se inteiramente no interior do casal. Claro, existem situações externas, como o vestido que não saiu conforme o esperado, mas tudo acaba se fechando nesse casal, restringindo-se às tramas paralelas.
O que, para mim, chega a ser muito mais atraente, dado que todo o conflito se manifesta através do psicológico de Alma e Reynolds. Claro, também é um grande teste para o roteiro e para a química dos atores, o que, sinceramente, não falta. Além de certos diálogos serem extremamente precisos para estabelecer a dinâmica do casal, é também um relacionamento que enfrenta altos e baixos.
É realmente um jogo de manipulação, um duelo de gato e rato, ou presa e caçador. A princípio, pensamos que Reynolds busca um amor em uma musa, uma figura de inspiração, aquela que é bela e se mantém calada, nada ativa, em contraste com ele.
“Reynolds fez meus sonhos se realizarem. E eu tenho dado a ele o que ele mais deseja: cada pedaço de mim.”
Contudo, conforme a rodagem da obra, não é o que parece. Reynolds é um homem de fases: em um dia, pode gostar de comer biscoitos; no outro, detesta. E Alma, que está sempre a serviço de seu companheiro, bela e nada intrigante, nota os maneirismos dele. Com o passar da rodagem, percebe-se que ele é um adulto mimado, alguém que sente saudades da falecida mãe e busca, em suas parceiras, esse traço. Em outras palavras, ele é a conchinha menor quando os dois estão na cama.
Essa questão pode até se elevar ao subtexto mais físico, não de aparência, mas de corpo. O que me faz crer nisso é uma das cenas iniciais, após o primeiro encontro com Alma, em que o estilista tira as medidas do corpo da mulher e, ao fim, parece satisfeito. Sua irmã, Cyril (Lesley Manville), complementa dizendo que ela tem as medidas perfeitas. Perfeitas? Perfeitas para quem? E qual é o referencial utilizado por eles para julgar a fisionomia das modelos? Isso leva a crer em uma saudade que vai além do sentimental, em uma obsessão por encontrar sua mãe.
Esse estudo totalmente freudiano, misturado a uma trama à sombra de “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, é simplesmente bizarro e extremamente atrativo. É quase um suspense sendo estabelecido em uma trama envolvendo um relacionamento amoroso.
Claro, são temas extremamente comuns na filmografia de Paul Thomas Anderson. Questões paternas e maternas sempre vieram à tona, desde seu filme sobre a indústria pornô, “Boogie Nights”, até o grande épico humano “Magnólia”. É um espaço que o autor entende e, com certeza, o ponto de ignição na construção de suas histórias.
De certa maneira, aqui ele pega traços fantasiosos para evidenciar a sombra da personagem da mãe, como a presença literal do fantasma da mãe morta e a questão da iluminação que, no auge emocional e conclusivo, se acende como um traço fantasmagórico junto à crescente musical. No fim, os dois entendem seus papéis e as dinâmicas estabelecidas.
Haveria maneiras mais fáceis de falar: “Eu sou submisso e quero ser mimado.” Ou, pior: “Estou procurando uma mãe.” Mas, né… se tudo fosse simples, não haveria filme. “Trama Fantasma” é, talvez, a elegância em forma de filme. Tudo está em sintonia: o elenco, a decupagem, a fotografia, a música, som – proporcionando momentos curiosos com a comida e o incomodo de Reynolds –, tudo! Um trabalho magistral que poucos diretores conseguem alcançar ou passam a vida toda tentando conquistar um pouco disso.
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