“Eles precisam desesperadamente de amor. São ruins em dá-lo e piores ainda em recebê-lo. Deus, como eles tentam…”, essa é uma frase escrita pelo crítico americano Roger Ebert, encontrada em seu texto sobre “Uma Mulher Sob Influência”, filme dirigido por John Cassavetes . Sempre que tenho a oportunidade de falar de Cassavetes e de seus filmes, gosto de parafrasear Ebert por conta dessa simplicidade extremamente descritiva das narrativas de John.
“Noite de Estreia” é talvez o trabalho mais confortável de Cassavetes, não por ser uma narrativa fácil, mas por se localizar em um ambiente que o artista conhece muito bem: o teatro. E, sim, esta obra é talvez a mais próxima de uma narrativa metalinguística feita pelo diretor.
Na história, uma atriz de teatro chamada Myrtle Gordon (Gena Rowlands) entra em colapso nervoso após ver uma fã morrer atropelada. Em meio aos ensaios abertos ao público, esse trauma ganha forma, somando-se a uma possível crise relacionada ao seu envelhecimento, intensificada pelo fato de esse ser o tema da peça, além de seu vício em álcool. Ah, e, é claro, a fã retorna como um fantasma — ou talvez um delírio — de Myrtle.
O fantasma é um elemento clássico de qualquer peça shakespeariana e, tratando-se do teatro, Cassavetes adota esse tropo narrativo em “Noite de Estreia”, retomando algo semelhante mais tarde em “Love Streams”, outro longa do diretor. Mas, é claro, há muitas dúvidas em torno desse fantasma da fã, que, nesta terceira revisão, se tornaram ainda mais explícitas.
A fã é jovem, loira, veste preto, simbolizando sua morte, mas tem uma aparência muito semelhante à da própria Myrtle. Esse delírio nos conduz ao questionamento mais óbvio: seria uma projeção da própria atriz, que se apropria desse espírito para materializar o preconceito que nutre em relação ao próprio envelhecimento? Uma tentativa desesperada de recuperar a juventude em meio à névoa que envolve sua profissão. O que, supostamente, é uma arte voltada à criação de novos mundos acaba se tornando, para Myrtle, um espelho revelador e agressivo, levando-a a criar essa fantasia como forma de fuga.
Também existe o lado da atriz, na dificuldade de se conectar com a personagem por conta do péssimo texto que lhe foi entregue. Afinal, ela precisa recitar aquelas falas todos os dias, falas que evidentemente partem de uma mente muito retrógrada ao comentar sobre o papel da velhice no mundo contemporâneo. Nesse caso, criar uma fantasia passa a ser uma terapia, e não um delírio. Apesar de todas essas suposições, gosto de pensar que a fã representa a própria Myrtle jovem, mas que ela nunca realmente existiu. Nunca houve uma fã louca, loira e jovem, nem mesmo o acidente. Tanto que a importância que seus colegas dão à morte da garota é de total desinteresse e falta de empatia, o que me faz reinterpretar essa situação como um acontecimento à parte da realidade.
Tirando todas as interpretações que esse filme permite, sempre que olho para “Noite de Estreia”, ele me remete muito ao cinema de Ingmar Bergman, especialmente ao seu filme mais importante, “Persona”. Sobretudo pelo conflito entre as duas loiras, por essa extensão da personalidade e pela projeção desse fantasma. E, é claro, por uma possível crise de identidade provocada pelo papel na peça e que consequentemente, a personagem principal não consegue interpretar. O que resume bem a trama de “Persona”, só que ao invés do tema ser velhice, é sobre maternidade.
Extremamente dramático, mas não se engane: apesar de o longa trabalhar com temas pesados, ainda existe esse quê de tragicomédia, em que todas as situações acabam nos levando a desfechos engraçados e inusitados, envolvendo cartomantes, improvisos em cena — tanto no filme quanto na peça — e evidenciando esse descontrole na tela, com personagens berrando, chorando e chegando aos seus limites. Isso é comum no universo de Cassavetes, em que se tem a impressão de que toda a ação já havia começado antes mesmo de a câmera ser ligada. Um caos que captura o instante da encenação.
E onde entra o amor nisso tudo? Talvez essa jornada seja a reconquista de Myrtle pelo amor-próprio. Só que ela é tão ruim em aceitá-lo que precisa atravessar o inferno apenas para se sentir merecedora desse amor. Não estamos presenciando a atriz clássica a serviço do público, mas o público a serviço da felicidade da atriz.
