O que se constrói sobre uma Plataforma: a importância do atravessamento em uma maratona de encontros investigativos

Por Gabi Coutinho

Existe algo muito bonito acontecendo quando uma companhia consagrada decide não mostrar apenas obras prontas, mas abrir as portas do pensamento. A Plataforma Súbita parece entender isso profundamente ao construir sua programação não como uma vitrine, mas como uma casa temporária de encontros. Um espaço em que processos importam tanto quanto estreias, em que perguntas têm o mesmo peso das respostas, e em que o teatro deixa de ser somente produto para voltar a ser presença, convivência e investigação.

Realizada na CAIXA Cultural Curitiba entre 5 e 17 de maio, a programação criou uma espécie de rotina paralela dentro da cidade. Uma rotina intensa, atravessada por oficinas, conversas, mostras de processo, encontros críticos e espetáculos que se contaminam mutuamente. E talvez esteja aí uma das maiores forças do evento: apesar de independentes, as atividades pareciam conversar entre si o tempo inteiro. As oficinas, especialmente, ajudaram a consolidar essa sensação de travessia coletiva. Não apenas pela qualidade técnica, mas porque pareciam partir de uma mesma inquietação: pensar linguagem. Pensar como se conta uma história, de onde ela nasce, quais corpos ela atravessa e quais formas ainda não foram inventadas.

As investigações sobre radioteatro, por exemplo, devolviam força à escuta num tempo saturado de imagens. Havia algo quase íntimo em perceber como a voz, o silêncio, a respiração e a construção sonora ainda podem fabricar mundos inteiros. Já os encontros sobre diálogo pareciam ir além da estrutura dramatúrgica tradicional para refletir sobre escuta verdadeira, ritmo, tensão e presença. Não apenas como técnica de escrita, mas como possibilidade de relação humana.

A oficina sobre dramaturgia como forma de delirar talvez tenha sintetizado uma das pulsões mais bonitas da Plataforma Súbita: a permissão para imaginar sem pedir desculpas. Fabular ali não surgia como fuga da realidade, mas como ferramenta para ocupá-la. O delírio aparecia como potência criativa, política e sensível, reinventando narrativas, perspectivas e até futuros.

Ao lado disso, as discussões sobre dramaturgia e direção em pautas identitárias ampliavam o debate sobre representação para um território mais complexo e necessário: o da construção ética e estética das obras. Não bastava falar sobre determinados corpos e experiências; era preciso refletir sobre ponto de vista, estrutura e espaço de criação. 

Neste cenário, vi surgir ali uma programação que questionava, de maneiras diferentes: “Que formas ainda precisamos criar para dar conta do mundo em que estamos vivendo?”

O mais bonito era perceber como teoria e prática caminhavam lado a lado sem hierarquia. As oficinas não se limitavam a conceitos abstratos, assim como as atividades práticas nunca pareciam vazias de reflexão. Havia pensamento no fazer e havia corpo no pensamento. E dessa aproximação surgiam fagulhas (pequenas imagens, perguntas, ideias e desejos de criação) que inevitavelmente devem reaparecer em futuras cenas, textos, espetáculos e investigações.

Quanto à Mostra de Processos, há algo de muito generoso junto à exuberantes gestos de coragem. Mostrar o que ainda está em construção é permitir que o público enxergue as dúvidas, os desvios, as rachaduras e os riscos que normalmente desaparecem antes da estreia. A Plataforma Súbita transforma isso em potência. As salas de ensaio deixam de ser territórios fechados e passam a funcionar como espaços de escuta. O público não entra apenas para assistir, mas para participar de uma experiência que pode, efetivamente, modificar os rumos de uma criação.

Nisso eu destaco a importância da Plataforma Súbita para a cena cultural curitibana. Porque ela faz duas movimentações essenciais ao mesmo tempo: traz pessoas de fora para perto das investigações produzidas aqui e, ao mesmo tempo, projeta para o exterior a consistência do que vem sendo construído na cidade. Não se trata apenas de circulação artística, mas de criação de vínculo.

A curadoria merece destaque justamente por conseguir sustentar essa unidade delicada. Há diversidade em múltiplas vertentes, mas existe um eixo invisível conectando tudo: o interesse por uma cena viva, crítica e profundamente contemporânea. 

Foto Maduh Cavalli

Depois do turbilhão de um grande festival na cidade – tão importante e também cheio de atravessamentos – é preciso mencionar, ainda, um certo alívio em reencontrar eventos de pequeno porte que permitem proximidade. Diante de tanta intensidade, encontrei ali esse respiro. Um ambiente em que ainda é possível reconhecer rostos ao longo dos dias, continuar conversas interrompidas, criar intimidade com os espaços e sentir que se pertence, mesmo que temporariamente, àquela comunidade artística. Existe um acolhimento raro nisso tudo. Uma atmosfera em que a correria e certa “overdose” de conhecimentos não exclui o afeto.

Aí entra também a receptividade da CAIXA Cultural Curitiba. Há instituições que apenas sediam eventos. E há instituições que parecem compreendê-los. Durante a Plataforma Súbita, a Caixa se transformou num espaço de permanência. Um lugar confortável, próximo e de circulação genuína.

No fim, a Plataforma Súbita reafirma algo que às vezes esquecemos no meio da pressa: a arte também se constrói nos intervalos. Nas conversas de escada. Nos cafés compartilhados depois das oficinas. Nas dúvidas divididas após uma apresentação. Nos artistas que chegam de fora e saem levando um pouco da cidade consigo. E nos artistas da cidade que finalmente conseguem enxergar a dimensão do que produzem quando alguém de longe olha para aquilo com espanto, curiosidade e admiração.

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