“Zootopia 2”, “Duna: Parte 2”, “Avatar 3: Fogo e Cinzas”, e uma lista enorme de sequências de grandes sucessos de Hollywood bateram recordes de bilheteria nos últimos anos. “Star Wars” está para ganhar um novo capítulo neste mês, Todo mundo em Pânico retornando as telas e até “Toy Story” e “Shrek”. Parece que Hollywood já não sabe mais fazer novas histórias ou o mercado prefere apenas sequências?
A linha é um pouco mais profunda, quando paramos para analisar tais conjecturas. O abismo para compreender as necessidades de mercado, o que gera mais dinheiro e a arte cinematográfica em si é tão profundo quanto as fossas marianas, por assim dizer.
A Harris Poll publicou em 2024 uma pesquisa em que 74% do público das gerações Millennials e Z preferem filmes originais do que remakes. Isso revela uma situação oposta na prática. Há uma diferença entre o que o público quer e o que ele paga para ver no cinema.
Hollywood, atualmente, tem insistido em continuações, remakes e live actions. A prova disso é a versão live action de Moana, cuja animação recém chegou ao mercado. O que antes levava ao menos 4 décadas para acontecer, foi encurtado para cinco anos. A continuação de clássicos, como “Todo mundo em pânico”, “Premonição”, “Toy Story” e “Shrek”, também inflam esse mercado de saturação de histórias.
Acontece que após a chegada do streaming com força, elevando a queda de público nos cinemas e uma crise pandêmica, até mesmo uma indústria trilionária como Hollywood precisou se adaptar para manter os padrões de produção.
A indústria tem apostado no que se chama IP (Propriedade Intelectual), ou seja, é mais barato investir em marcas que já estão consagradas pelo público, como “Moana” da Disney, “Toy Story” da Pixar e “Avatar” da 20th Century Fox, do que em filmes que o risco de ser fracasso é maior. Afinal, o custo de marketing de um filme 100% original e inédito pode ser 150% maior do que o valor de produção.
O mesmo viés acontece com adaptações literárias – onde já existe um público leitor fiel – e com cinebiografias, como a de “Michael”, que está em 1º lugar em bilheterias há semanas, mesmo após quase um mês de seu lançamento.
Infelizmente esse cenário não está nem perto de acabar. De acordo com dados do IMDB, cerca de 100 remakes ou reboots estão em desenvolvimento simultaneamente em Hollywood, o que é material para pelo menos mais meia década.
Outro fato de mercado é o conceito de “laboratório” no streaming. Lançar no cinema é muito mais caro do que no streaming por diversos aspectos de logística e marketing, assim, a estratégia dos grandes players, como Disney e Warner, é testar a marca na plataforma antes de criar derivados para o cinema. A Disney fez isso com o spin-off de Star Wars, “The Mandaloriano”, que após sucesso na plataforma – mesmo fracasso nas críticas – ganhou um filme que chega aos cinemas neste mês.
O fim da originalidade
Infelizmente, isso representa sim o fim da originalidade e traz a velha frase “nada se cria, tudo se copia” para o centro de um ecossistema. O que acontece é que os cinemas estão sim em crise, por diversos aspectos. Engana-se quem declara que o culpado disso é o streaming ou o preço dos ingressos. É a estrutura atual que talvez já não converse com a realidade das pessoas.
Ir no cinema exige logística e paciência. É adolescente rindo e conversando alto, criança mexendo no celular, adultos que não sabem comer sem fazer barulho, sem contar os que acham que ali é uma pool party e transformam a sala em um karaokê.
A exemplo, durante a exibição de “Wicked: Parte 2”, vídeos de fãs cantando as músicas do filme viralizaram nas redes sociais. O caso mais recente envolve o filme “Michael”, onde pessoas fantasiadas dançavam as coreografias embaixo da tela ou imitavam os gritos do astro durante o filme. A noção do ridículo e do espaço do outro, com certeza, atrapalham a experiência cinematográfica e influência na decisão de esperar pelo streaming.
Outro fator determinante nessa crise de Hollywood foi a negociação da Warner Bros entre Netflix (Streaming) e Paramount (Cinema). A gigante defendia que os filmes estreassem simultaneamente no cinema e na plataforma ou com no máximo uma janela de 6 semanas. Então, porque ir ao cinema se em menos de um mês ele estará na Netflix?
Os cineastas e sindicatos defendem uma jornada de pelo menos 14 semanas. Há quem diga que o mínimo seria 1 ano após o lançamento e trabalhar o pós em DVDs físicos ou aluguel via streaming, para que a arrecadação do filme seja maior e menos dissolvida.
A realidade é que dificilmente teremos novas histórias ganhando força no cinema atualmente, a menos que venham dos maiores nomes do cinema atualmente como Christopher Nolan, James Cameron e Steven Spielberg. E mesmo assim, ainda está atrelado ao motivo de marca. Grandes nomes já estão consagrados mundialmente e podem garantir mais rentabilidade nas bilheterias. Do contrário, teremos que nos contentar com remakes e reboots.
