Há filmes que existem para contar uma história. Há filmes que existem para celebrar um legado. “Michael”, a aguardada cinebiografia do Rei do Pop dirigida por Antoine Fuqua e estreada nos cinemas em 24 de abril, pertence claramente à segunda categoria. E não há nada de errado nisso, desde que o espectador entre na sala ciente dessa escolha.
Produzida pela Lionsgate e Universal, com orçamento estimado em 200 milhões de dólares, a obra chega carregada de expectativa, de responsabilidade e de uma pergunta que nenhum fã consegue ignorar: é possível retratar o maior entertainer da história do pop sem encarar as sombras que também fazem parte dele? A resposta, ao menos neste primeiro filme, é não. Mas o espetáculo que o longa oferece é tão generoso que é impossível sair do cinema indiferente.
Jaafar Jackson: o sobrinho que virou rei
A grande aposta da produção é também seu maior acerto. Jaafar Jackson, filho de Jermaine Jackson e sobrinho direto de Michael, estreia nas telas sem nenhuma experiência prévia de atuação e entrega uma das performances mais impressionantes da temporada. As coreografias estão impecáveis, reproduzidas com uma precisão que beira o sobrenatural. O moonwalk, o robot, o toe stand estão todos lá, com a fluidez e a angularidade que só o original tinha. A voz suave e levemente infantilizada está lá. E nem preciso falar sobre a trilha sonora porque, bem, é Michael Jackson.
O diretor Antoine Fuqua revelou em entrevista ao portal The Credits que o momento decisivo veio logo no primeiro dia de filmagens: “Foi no dia um, vendo Jaafar performar ‘Bad’. Essa foi a turnê onde Michael ganhou asas e liberdade criativa. Ver Jaafar fazer aquilo, sem nunca ter atuado antes, na frente de 500 ou 600 figurantes gritando, pareceu um concerto de verdade. Foi um momento decisivo para mim. Estava compreendendo Michael de uma perspectiva mais íntima.”
O cinegrafista Dion Beebe, em seu primeiro trabalho com Fuqua, também foi conquistado nos bastidores. “Joguei algo inesperado no Jaafar, e ele começou a falar como Michael. Havia lágrimas por toda a sala. Olhei para o Dion, ele tinha lágrimas nos olhos, e disse: ‘Preciso fazer este filme'”, contou o diretor ao Moviefone. O produtor Graham King, que já tinha no currículo “Bohemian Rhapsody”, a cinebiografia oscarizada de Freddie Mercury, revelou que a descoberta de Jaafar foi quase um acidente. Em um almoço, King ficou perturbado porque o jovem canalizava Michael de forma natural, mas insistia que não queria ser ator. Os coreógrafos originais do Rei do Pop chegaram a duvidar que Jaafar conseguiria aprender os passos. Ele pediu apenas um mês e espelhos grandes. O resultado está na tela, e fala por si.
A autenticidade do filme vai muito além da atuação. Fuqua filmou em Hayvenhurst, a mansão real da família Jackson em Encino, no local exato onde o clipe de “Thriller” foi gravado e no Pasadena Civic Auditorium, palco original do especial do Motown 25. “Ter acesso a Hayvenhurst foi incrível. Filmar nos estúdios originais de Los Angeles onde ‘Off the Wall’ foi gravado foi incrível. Você podia sentir a história no ar”, disse o diretor. Os Grammys que aparecem em cena são os originais de Michael Jackson. A jaqueta usada na cena da premiação pesava 15 quilos, coberta de joias artesanais produzidas pela figurinista Marci Rodgers. Até a lua colaborou: durante as filmagens do clipe de “Thriller”, a produção teve lua cheia todas as noites, e Fuqua chegou ao set para encontrar toda a equipe com máscaras de lobo, dançando ao redor da locação. “Havia tantos momentos em que eu não conseguia acreditar que estava recriando o clipe de ‘Thriller'”, revelou.
Uma produção que cheira a família
O filme acompanha a trajetória de Michael Jackson desde os anos 1960, com o Jackson 5 em Gary, Indiana, até o início da carreira solo, encerrando com a turnê “Bad” em Londres, em 1988. Uma escolha narrativa que não é neutra: ao parar exatamente ali, o longa convenientemente evita qualquer menção às acusações de abuso infantil que marcaram os anos seguintes. Nada sobre as controvérsias dos anos 1990, nenhuma referência ao documentário “Leaving Neverland”, nenhuma sombra sobre a segunda metade da vida do artista.
Isso não chega a ser uma surpresa. O filme é produzido com a bênção e o controle dos executores do espólio de Michael Jackson, John Branca e John McClain, além do envolvimento direto da família. A própria Paris Jackson, filha de Michael, declarou publicamente não ter participado do projeto e descreveu um roteiro inicial como “açucarado”. A crítica especializada acompanhou o raciocínio: o Hollywood Reporter classificou o filme como “sanitizado”, embora reconhecendo que ele consegue ser “surpreendentemente tocante” dentro dos limites que se impõe a si mesmo.
Ao final, surgem na tela as palavras “The story continues…”. “Michael” é, portanto, o primeiro capítulo de uma franquia pensada para o longo prazo, e a pergunta que fica no ar é inevitável: a sequência vai, finalmente, encarar as partes da história que este primeiro filme preferiu ignorar?
Por ora, não há resposta. O que se sabe é que se a continuação seguir a mesma linha, o espectador pode esperar mais do mesmo: um espetáculo visual e musical de primeira grandeza, com um personagem histórico retratado pela metade. Vale a pena assistir? Sem dúvida, pela beleza das imagens, pela performance extraordinária de Jaafar Jackson e por uma trilha sonora que atravessa gerações sem pedir licença. Mas quem entrar na sala esperando a verdade completa vai sair com a sensação de que faltou alguma coisa importante.
Talvez seja exatamente isso que a família queria.
Assista ao trailer:
Foto de capa Glen Wilson/Lionsgate – © 2025 Lionsgate
