Drags vão ocupar e resistir, porque no final o leque não vai parar de bater

Quando foi a última vez que você viu uma Drag Queen ocupar um palco que não fosse das baladas e boates? Quando foi a última vez que você as ouviu contar suas histórias? Que você, por um segundo, se perguntou, qual cruz elas carregam em suas costas? No espetáculo “O grande cabaré combo drag week”, que passou pelo Festival de Curitiba 2026, o que se vê são tentativas de responder a essa ruptura humana e social que por tantos anos foi-se normalizada. 

O leque bateu e os seios giraram no palco do Guairinha, um teatro tão monumental e assim deve continuar. Ocupando, resistindo e existindo. O conceito de espetáculo-show não é novo, mas parece trazer para esse universo tão aristotélico, uma maneira que equilibra o show business e o rídiculo. Em diversos momentos se torna pertinente questionar-se, se aquilo deve ser teatro ou não. 

Mas a resposta surge com a própria pergunta. Se tal arte não é teatro, o que é teatro? É teatro drag, das ruas e das madrugadas. É de artistas que não se sufocam nos balés, mas resistem às mazelas sociais que lhes foram concebidas. Onde estão as drags? 

A arte drag, da dublagem, da revista, do cabaré é essa. É justamente o que se vê em cena, sem medo de ocupar. É domado uma história sem dramaturgia, porque não há ficção que caiba tamanha existência. Quando Juana Profunda abre suas cortinas para receber esse público que desconhece as madrugadas de forma tão poderosa, é ali que se vê a afrodisíaca celebração à uma comunidade tão forte. 

O impacto é sentido logo no primeiro ato, com a presença de mil drags, que onipresentes ocuparam cada centímetro do teatro, transformando essa celebração a existência da noite, mas que desobedientemente também ocupa no dia, a luz do sol. É da drag, é do corpo e principalmente, do humano. 

Foto Matteo Gualda

Tal espetáculo show nada mais é do que humano, sem barreiras, sem moral e sem costumes. É apenas, humano. Daquela humanidade que se pergunta no íntimo, que se vive ao deitar-se no travesseiro. 

Com humor que só as drags possuem, os fios da sociedade são desfiados um a um, mesmo em um espetáculo que não se preocupa em contar nada. Apenas existir em sua forma mais pura. Na batida de cada leque, no giro de cada cetim e no salto de cada artista, a história é contada de sua maneira mais leve e potente. Ao encarar o ato final, percebe-se que o sorriso genuíno de cada espectador poderá resistir por mais tempo do que o comum, afinal quem o provocou foi uma drag. 

Foto de capa Matteo Gualda

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