‘A Máquina’ transforma-se de uma poesia clássica a um reverência ao Teatro

Fôlego. Uma palavra que em “A Máquina” nos falta. Corpo. Uma coisa que se tem em abundância. Para além das palavras, o espetáculo que passou pelo Festival de Curitiba 2026 na Mostra Lúcia Camargo é uma travessia imensurável por dentro de cada ser humano. A partir de um texto com tantas camadas, mesmo que de um simples ponto inflexível: o amor, obriga seu público a viver sem o fôlego ainda que com muita presença corporal. 

Baseado na obra de Adriana Falcão e dirigido por João Falcão e Gustavo Falcão, esse espetáculo é o que se pode chamar de celebração à vida. Qual o sentido da vida se não o do amor? Mas o que fazer para não perdê-lo? A jornada de Antônio não poderia ser mais humana, mais clássica e – talvez até batida – de tantas maneiras. Atire a primeira pedra quem nunca deixou se apaixonar por alguém. O que essa vastidão de sentimentos pode dizer sobre um sentimento tão genuíno, incontrolável e com tantas dores a causar-nos? 

Foto: Humberto Araujo

Com esse desafio, nos vemos torcendo por Antônio, por esse amor, tal como se torce por nós mesmos. A afetividade humana é transposta ali, em cima do palco, com tamanha presença que esse amor se torna célebre. 

Agnes Brichta, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto são verdadeiros semideuses em cena. Em uma eloquência teatral, arrastam o público para um lugar que poucos ainda conseguem. Entre essa jornada cósmica do amor e do desespero, da luta e da sobrevivência, cada um acompanha uma viagem sem fim. Afinal, não são nossos amores infinitos?

Com suas potencialidades, o elenco transforma a ficcional Nordestina em uma realidade imutável, que transborda a vida de qualquer brasileiro. É como assistir a realidade fragmentada ali, diante dos olhos. De forma tão bela que as finas paredes que separam a arte da realidade se rompem de vez. 

Há de se notar o trabalho de corpo de um elenco tão numeroso e diverso. Com apenas dois personagens, Antônio e Karina, atores e atriz conseguem unidade cênica que apenas uma conexão profunda é capaz de sustentar em mais de uma hora de espetáculo. O sentido de cada movimento, de cada corrida ou cambalhota são costurados ao longo da dramaturgia que lhes preenche por completo. É disso que se faz um teatro feito do processo e não da urgência. De um show que se permite ser criador, mesmo sem inovar, mas com a certeza de emocionar. 

Foto: Humberto Araujo

O que se assiste em “A Máquina” é o poder da emoção humana, dos afetos que nos corrompe ou constrói, e principalmente, da força ambiciosa de sonhos cada vez mais profundos. A cenografia assinada por João Falcão e Vanessa Poitena é universal no sentido literal e figurativo. Transformando o palco italiano em arena e através de um centro giratório, sem precisar de nenhuma cadeira, bolsa ou xícara de café, conseguem colocar o público dentro de Nordestina. Na casa da avó, com a xícara de café prestes a sair, de uma tarde ensolarada de domingo. 

O figurino de Chris Garrido é de um preciosismo intocável que se preocupa o tempo todo na unidade poética que identifica os dois protagonistas igualmente. Os detalhes, de um furo a um rasgo, contam uma jornada na vida de cada um. 

“A Máquina” é um espetáculo que não pode – jamais – ver a luz do dia pela última vez. É uma missão teatral, existencial e artística. Falar de amor, de humor, e principalmente de sonhos pode parecer assunto vazio de cada esquina teatral, mas com o impacto que esta máquina traz, não. É raro, para não dizer mitológico e praticamente extinto. Portanto, está nas mãos de Falcão e sua companhia manter tal espécie viva no recinto humano. Afinal, essa jornada cósmica não pode ser interrompida agora, tão pouco nos resta o choque ao asteroide. “A Máquina” é uma celebração viva de uma vida que por vezes parece não existir.

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