O blockbuster que não arrisca: “Devoradores de Estrelas”

É fato que o cinema norte-americano está passando por sua pior fase nos últimos anos, dados os seguintes fatores: 1. Saturação do gênero de heróis; 2. Repetição dos mesmos assuntos em diferentes gêneros, seja na criação de universos expandidos ou em narrativas que visam um tom nostálgico; 3. Visuais horríveis, evidenciando a falta de personalidade em muitos produtos do audiovisual.

“Devoradores de Estrelas” é o primeiro grande blockbuster do ano. Em recente lançamento, tem comovido e emocionado muitos espectadores que, naturalmente, criaram um marketing engajado, seja comparando-o com outras narrativas de sci-fi, seja utilizando músicas de Harry Styles como hino para o filme, entre outras trends que surgiram ao longo das semanas. Isso me fez questionar se o público está carente de bons sci-fis devido a essa emoção em massa.

Eis aqui um filme que não é sobre um herói — no conceito de dupla identidade —, focado em uma situação, sem visar a um grande universo ou à sua expansão, além de trazer algo novo — apesar de ser adaptado do livro de Andy Weir. Por fim, é visualmente lindíssimo! Por mais que eu tenha reclamações quanto à direção de arte, em especial em tudo que envolve a rocha alienígena, ainda assim, a fotografia de Greig Fraser é um grande destaque.

Provavelmente, esses foram os motivos do sucesso popular do filme: uma história que não é muito mirabolante, com um fator humano presente e, no geral, uma aventura fantástica, porém contida. Contudo, “Devoradores de Estrelas” continua sendo um blockbuster, e são notáveis as grandes inspirações, compilações e misturas de várias ficções científicas que tiveram sucesso nos últimos dez ou quinze anos. Você mesmo pode notar: há um quê de distopia de “Interstellar”, junto à sua veracidade na questão física; também há toda a linguagem de comunicação com extraterrestres, tirada diretamente de “A Chegada” ou “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”; e, é claro, toda a questão do isolamento com humor, puxada de “Perdido em Marte” —, por acaso, do mesmo roteirista (Drew Goddard) e baseado na obra do mesmo autor citado anteriormente.

Acusaria até que o argumento da obra poderia ser resultado de IA, dada a precisão e a pesquisa nos tropos mais previsíveis para o engajamento do público, mas não é o caso — pelo menos, quero acreditar que não seja.

E é por isso que a experiência me soa um tanto limitada. Ao ser amarrado a essas convenções, o filme não cria algo a mais para si, contentando-se com aquilo que já está estabelecido e dentro do limite da crença do espectador. Eles não querem chocar — isso seria radical demais —, querem manter tudo o mais próximo possível do lugar-comum. O exemplo mais claro é a nave do alienígena Rocky, que parece ter sido decorada por arquitetos que visam ao minimalismo, com cores monocromáticas. E o resultado? Uma sessão de mobiliados da Tok & Stok. Claro, existe um pouco de sarcasmo na minha fala, mas a crítica é real.

Inclusive, a história até poderia flertar com as aventuras pulp das revistas de sci-fi, por conta da trajetória do nosso herói: um professor de ciências, meio galã e, talvez, nas horas vagas, um astronauta que só é chamado quando o mundo precisa ser salvo. Contudo, esse fetiche pela realidade mata qualquer ideia de aventura fantástica no maior estilo Indiana Jones, prendendo-se a uma narrativa positiva, com poucos ou quase nenhum dilema moral ou filosófico, personagens adoráveis. Em resumo, um longa de golden retrievers, ou, um videoclipe da banda Coldplay.

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