Do nascimento à prisão: O Ciclo de Opressão em O Círculo

Em uma recente adição ao catálogo da MUBI, junto à criação da retrospectiva do diretor Jafar Panahi — recentemente indicado ao Oscar por “Foi Apenas um Acidente” —, essa mostra foi intitulada “Cinema a Qualquer Custo”. É interessante o uso dessa expressão para definir o conjunto da obra do diretor iraniano, uma vez que ele vive em um país culturalmente engessado, ao ponto de se proibirem qualquer tipo de fantasia nos filmes, críticas ao regime e o fato de ser uma sociedade extremamente patriarcal e machista, entre outros aspectos.

A pergunta que fica é: como fazer cinema mesmo com todas essas amarras? A resposta é simples: apenas faça. Não é pena que Jafar Panahi busca, mas sim a necessidade de se expressar, de não se calar. São imagens que soam simples, mas há uma extrema coragem em sua construção. Hoje, o recorte que irei abordar dentro desse cinema de resistência talvez seja seu filme mais desafiador.

“O Círculo” foi o grande vencedor do Festival de Veneza, recebendo o Leão de Ouro no ano 2000. Trata-se de um filme que se mostra extremamente descompromissado com uma narrativa tradicional, ao abordar a história de várias mulheres ao longo de um único dia, em uma cidade do Irã.

A trama se inicia em uma maternidade: uma menina nasce e, desde esse momento, parece já estar causando intrigas antes mesmo de aprender a falar. Sua avó comenta o possível problema que isso representará para toda a família. No entanto, a narrativa logo muda de foco e passa a acompanhar três irmãs que tentam fazer uma ligação. Em seguida, seguimos uma mãe que abandona a própria filha, entre outras mulheres e suas respectivas desventuras.

De fato, a obra pode soar fragmentada, sem uma conclusão clara ou até mesmo como uma espécie de festival de curtas dentro de um único filme.

Em um primeiro contato, o filme não parece provocar nenhuma reação imediata, nem oferecer uma moral ou conclusão clara. Ficamos à deriva diante dos acontecimentos, perdidos, sem um guia. Aos poucos, surge a desconfiança de que não podemos nos apegar aos personagens, já que eles entram e saem da narrativa repentinamente, sem aviso prévio. Quando o filme chega ao fim e os créditos sobem, fica a dúvida: o que acabei de assistir?

O que você acabou de assistir é, na verdade, um retrato da mulher no regime iraniano. Veja bem: apesar de não apresentar uma história com conclusão tradicional, o filme aborda diversas situações desesperadoras, desconfortáveis e até mesmo banais que mulheres enfrentam nesse país.

Nas entrelinhas, há, sim, uma protagonista — ou melhor, uma figura central. Ou seja, acompanhamos, simbolicamente, a mesma personagem: o retrato do feminino, desde o nascimento até o momento em que dá à luz uma criança. E, se essa criança também for geneticamente XX ou se transicionar, sua vida é marcada por limitações dentro desse contexto.

Gosto muito da semiótica que Panahi constrói a partir da cena inicial e da cena final. No começo, estamos em uma maternidade, onde a porta possui uma pequena janela deslizante, utilizada para a comunicação. Já ao final do filme, estamos em uma prisão feminina, ocupada por mulheres que, de alguma forma, desobedeceram às leis ou vivem sem a presença de um homem. Curiosamente, a porta da cela é semelhante à da maternidade, também com uma janela rasteira.

Esse paralelo visual reforça a ideia de um ciclo opressivo e de certa forma, estar já inserida em uma prisão simbólica contínua.

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