Existe um movimento bastante curioso e experimental ocorrendo dentro do gênero de terror neste momento, no qual populares criadores de conteúdo digital têm utilizado suas plataformas e bases consolidadas de fãs para emplacar suas empreitadas dentro do universo cinematográfico. É o caso de Terror em Shelby Oaks, do youtuber Chris Stuckmann; do longa brasileiro A Própria Carne, produzido pelo Jovem Nerd; e também de Iron Lung, dirigido, estrelado, roteirizado, editado e financiado por Mark Fischbach, mais conhecido pelo nome Markiplier.
Markiplier é um criador de conteúdo que ficou conhecido no YouTube por produzir vídeos de jogos, especialmente do gênero de terror, contando atualmente com mais de 38 milhões de inscritos. Usando essa plataforma, ele investiu cerca de US$ 3 milhões na produção de seu primeiro longa-metragem, uma adaptação do jogo de terror independente de mesmo nome. O resultado é um filme de terror cósmico que, embora apresente bons conceitos, também evidencia as limitações de uma produção tão enxuta.
Iron Lung é ambientado em um futuro no qual um evento misterioso dizimou sistemas solares inteiros e quase erradicou a humanidade, forçando-a a buscar soluções desesperadas para sobreviver. Simon (Markiplier) é um presidiário que recebe a tarefa de pilotar um submarino por um mar de sangue em uma lua alienígena em troca de sua liberdade. A missão, no entanto, torna-se muito mais perigosa quando Simon começa a fazer descobertas perturbadoras nas profundezas.
Contextualizar uma obra e seu processo de desenvolvimento nos permite compreendê-la com maior clareza e, no caso de Iron Lung, saber que se trata de um longa de baixíssimo orçamento coloca em perspectiva — e até justifica — muitas das decisões criativas tomadas.
O filme é ambientado quase inteiramente dentro do submarino, o que contribui para criar um clima de claustrofobia e insegurança tanto para Simon quanto para o espectador, enquanto sua sanidade mental é progressivamente colocada à prova. Mesmo com recursos limitados, o longa consegue estabelecer uma identidade visual interessante, seja no submarino dilapidado que parece prestes a ceder a qualquer momento durante a expedição, seja nas bizarras — e por vezes perturbadoras — fotografias das criaturas que habitam o mar de sangue.
O uso de imagens borradas e de baixa visibilidade estabelece, de forma simples, barata e eficiente, o medo do desconhecido e a sensação de impotência diante de uma criatura que desafia a compreensão — elementos fundamentais no gênero do horror cósmico.
Outro ponto que chama atenção é a própria direção de Markiplier, que, em sua primeira tentativa como diretor de longa-metragem, consegue entregar cenas com enquadramentos interessantes e criativos, capazes de transmitir a sensação de angústia e desgaste do personagem.
Por outro lado, o mesmo não pode ser dito de sua atuação, que soa bastante canastrona. Os diálogos do personagem e a forma como são ditos em cena lembram mais comentários que Markiplier faria durante um de seus vídeos jogando games de terror. Pode parecer uma crítica pequena e bastante específica, mas houve momentos em que esses comentários me provocaram risadas involuntárias — algo que claramente não era a intenção da cena.
A montagem do longa, também assinada por Markiplier, é outro ponto problemático. Por se tratar de um filme de terror cósmico e ficção científica, já é esperado um ritmo mais lento, construindo a tensão de forma gradual. Entretanto, o longa acaba exagerando nesse aspecto e, somado à limitação de cenário, torna-se rapidamente repetitivo e até entediante em alguns momentos, fazendo com que suas duas horas de duração pareçam muito mais longas.
Iron Lung certamente não irá agradar a todos. Na verdade, trata-se de um filme voltado para um nicho bastante específico — talvez até para um segmento particular dentro de uma bolha. De forma geral, é um longa que apresenta boas ideias, mas que poderiam ser elevadas caso não estivessem tão limitadas por um orçamento restrito.
Talvez a melhor forma de avaliar Iron Lung seja encará-lo como um experimento — um “test-drive”, por assim dizer — de Markiplier na transição de criador de conteúdo digital para cineasta. O filme já se provou um sucesso comercial, arrecadando cerca de US$ 50 milhões mundialmente. Fica a expectativa de que, em projetos futuros, Markiplier tenha acesso a mais recursos, conte com uma equipe maior de profissionais do cinema e evite assumir tantas funções simultaneamente.
