Uma linha tênue entre loucura e esperança um fluxo de pensamento para acompanhar Dias Felizes

Por Gabi Coutinho

Um dia feliz. Mais um dia feliz em que ela acorda com vontade de colocar no papel seus pensamentos do jeito que se fala, sem filtro mesmo, sabendo que talvez ninguém leia e que, pra quem ler, também talvez não faça o menor sentido (foda-se, como ela costuma dizer)

Ela começa sem saber exatamente de onde vem a primeira frase, apenas permitindo que elas se empilhem como se falar fosse mais urgente do que organizar, como se a coerência fosse um luxo e não uma necessidade, porque há dias em que o pensamento precisa sair antes de ganhar forma, e nesses dias o que existe entre a esperança e a loucura parece uma linha tão fina que quase se confunde, e ela percebe que vive sobre essa linha há algum tempo, equilibrando-se entre acreditar que resiste e suspeitar que apenas repete movimentos para não afundar, e o afundamento, ela sabe, não acontece de repente, não é dramático, não é sequer visível, é lento, quase educado, um centímetro por dia, uma rotina que se acumula, um desespero que não explode, apenas se torna cotidiano, e quando percebe já está parcialmente soterrada por dias que se repetem com pequenas variações, ou talvez nem se repitam, talvez seja sempre o mesmo dia que insiste em não terminar.

(ela tira da bolsa o batom e retoca diante do rosto pálido com olheiras cansadas) Ela fala, então, fala muito, porque falar cria contorno, delimita território, impede que o silêncio se instale por completo, e ela fala com o que encontra, com o que imagina, com o que talvez exista e talvez não, porque a resposta nunca foi exatamente o objetivo, o objetivo é o som, a vibração, a prova de que ainda há algo em movimento, e no fundo ela sabe que ninguém virá salvá-la, ou talvez saiba e prefira não saber completamente, porque admitir isso seria parar, e parar seria permitir que o soterramento se complete, então ela continua cuspindo verdades desconexas, fragmentadas, pequenas, antes que o silêncio as engula, antes que o ar fique denso demais (respira)

Estar presa diminui o horizonte, mas amplia o detalhe, e quando o corpo não pode avançar, o olhar começa a percorrer outras direções, e ela passa a notar pequenas alterações, mudanças mínimas, a luz que incide diferente, o som que surge e desaparece, e percebe que mesmo aquilo que parece repetição nunca se repete exatamente, que a solidão muda de textura, que a companhia, quando surge, não é necessariamente a mesma, que às vezes há alguém, às vezes apenas a ideia de alguém, e mesmo assim há um deslocamento, uma reorganização, uma possibilidade de olhar por outro ângulo, e nesse processo ela já não sabe mais quando vive um novo dia ou quando o tempo apenas se dobra, insistindo em não passar.

(ela olha pra frente e tensiona os lábios com a boca fechada esboçando um sorriso quase irreconhecível)

Talvez seja isso, pensa sem concluir, continuar falando para não desaparecer, continuar esperando sem nomear o que espera, sustentar essa verborragia que é excesso e estratégia ao mesmo tempo, porque alguém poderia dizer que não há sentido, que tudo isso é apenas mais um fluxo confuso, mas é justamente nessa falta de sentido aparente que se acumulam vários, e ela continua, atravessando o dia feliz, ou mais um dia feliz, sustentada pela própria voz, repetindo, variando, insistindo, como se cada palavra fosse um pequeno gesto de sobrevivência enquanto o tempo, teimosamente, insiste em não passar.

Ela se pergunta se ainda há alguém do outro lado e percebe que talvez não tenha chegado a lugar nenhum, que não houve conclusão, nem resposta, nem mudança visível, apenas a travessia desse amontoado de pensamentos que, ainda assim, a manteve acima da superfície por mais algum tempo, e isso basta, porque às vezes felicidade é só isso, não afundar completamente, não silenciar, não desaparecer, e então ela aceita que o texto permaneça assim, sem sentido, ou cheio deles, e fecha os olhos por um instante como quem guarda fôlego para o próximo dia que talvez seja outro, talvez o mesmo, mas que, de qualquer forma, ela pretende atravessar falando outra vez. Na esperança de que alguém esteja ouvindo.

“Uma linha tênue entre loucura e esperança” é uma “análise” e um sentimento de Gabi Coutinho sobre “Dias Felizes”, da Armazém CIA de Teatro – e é também um desabafo”.

Gabi Coutinho assistiu “Dias Felizes” no 34° Festival de Curitiba, em 04 de abril de 2026, No Teatro Guairinha.

Foto de capa João Gabriel Monteiro

Sinopse:

Enterrada até a cintura – e depois até o pescoço – Winnie encontra em seus pequenos rituais a última linha de defesa contra o colapso. Entre o sino estridente que pontua seu dia como um despertador sem trégua e o sol impiedoso que derrete qualquer noção de tempo, ela se apega ao conteúdo de sua bolsa espaçosa: uma escova de dentes, um batom, um espelho – e, mais ameaçadoramente, um revólver.

Ficha técnica

Dias Felizes, de Samuel Beckett; Direção: Paulo de Moraes; Elenco: Patrícia Selonk (Winnie), Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes (Willie); Tradução: Jopa Moraes; Iluminação: Maneco Quinderé; Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes; Figurinos: Carol Lobato; Música Original: Ricco Viana; Designer Gráfico: Jopa Moraes; Fotografias: João Gabriel Monteiro; Pedras Cenográficas: Alex Grilli; Efeito Sombrinha: Paulo Denizot; Videografismo: João Gabriel Monteiro e Paulo de Moraes; Assessoria para Videografismo: Rico Vilarouca; Colaboração Artística: Lorena Lima; Assessoria de Imprensa: Ney Motta; Produção: Armazém Companhia de Teatro.

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